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COLUNA

Bolsonaristas protestam contra a educação e brindam à insensatez

CIDADANIA ZERO

DANIELLE DA ROCHA CRUZ

DANIELLE DA ROCHA CRUZA coluna trata de temas variados, de forma crítica, combativa e arrojada. Seu foco é o funcionamento do Estado e as contradições da sociedade brasileira. Danielle da Rocha Cruz é professora de Direito Penal e Processo Penal na UFPB.

27/05/2019 21h07
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As conhecidas palavras de Darcy Ribeiro podem espelhar o que muitos de nós sentimos no dia de ontem. "Fracassei – escreveu Darcy – em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei”.

Entre as várias insanidades cometidas pelos fanáticos bolsonaristas, uma em especial chamou a atenção dos internautas neste domingo. Trata-se de um vídeo postado nas redes sociais por um manifestante, que, bastante transtornado, afirmava que “prédio público não pode ser utilizado de forma ideológica! É Brasil! Dinheiro Público é com responsabilidade!”. A frase, entoada de forma quase ininteligível, demonstra que nós erramos. O manifestante exaltado estava comemorando a retirada de uma faixa em defesa da educação afixada na fachada do prédio histórico da UFPR.

Cartazes empunhados como armas pelo bolsonarismo militante exigiam todo tipo de disparate, fechamento do Congresso, do STF, a aprovação do pacote anticrime de Sérgio Moro, uma reforma da previdência que a maioria ali presente não tem interesse em compreender etc. Em um espetáculo de mediocridade cinematográfica, os manifestantes conseguiram mostrar algumas das falhas da educação brasileira, incapaz de prepará-los para o exercício da cidadania. A educação brasileira não conseguiu incutir nestas pessoas da política antissistema o sentido da vida democrática.

Os ataques do governo Bolsonaro à educação deveriam ter sido suficientes para fulminar qualquer tipo de apoio a esse programa de destruição do Brasil. Mas o fanatismo conseguiu suplantar quaisquer resquícios de inteligência e de capacidade analítica que poderiam habitar naquelas pessoas. A exaltação do líder messiânico suplantou a mais elementar possibilidade de entendimento acerca das circunstâncias (Ortega e Gasset) de cada manifestante.

O bolsonarismo transformou a educação em ideologia; as universidades, em lugar de balbúrdia; os estudantes, em idiotas inúteis; Paulo Freire, em fraude; um astrólogo, em filósofo; um juiz inquisidor, em herói da pátria; um Bolsonaro, em Presidente da República.

Quando Darcy, que tanto contribuiu para a educação brasileira, afirmou ter fracassado em tudo o que tentou na vida, não imaginava que chegaríamos ao ponto em que chegamos em 2019. A retirada de uma faixa que tinha como objetivo defender o direito fundamental à educação indica que vamos enfrentar uma longa caminhada para a reconstrução do Estado Democrático de Direito.

Apoiar o governo Bolsonaro depois das investidas contra as universidades, contra os professores e estudantes, é ser contra o desenvolvimento do país e da própria ideia de humanidade neste início de século. Estamos acometidos de uma espécie de cegueira epidêmica, semelhante àquela imaginada por Saramago, que se espalhou de forma tão rápida e devastadora que apenas alguma tragédia nacional pode ser capaz de curar.

Foto: Reprodução de vídeo

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