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COLUNA

Um pequeno sacrifício para o trabalhador, um grande salto para o sistema financeiro

REFORMA DA PREVIDÊNCIA

MARCELO PIANCÓ

MARCELO PIANCÓMarcelo Piancó foi um humorista paraibano de expressão nacional. Faleceu em 22 de março de 2020. O portal preserva suas publicações em homenagem à memória de Piancó, que foi um dos nossos colunistas de primeira hora.

06/06/2019 17h19Atualizado há 3 anos
Por: Agassiz Almeida Filho

POR MARCELO PIANCÓ

Hoje parei para pensar sobre tudo o que cerca a tão fustigada reforma da previdência. De um lado, o governo a vende como se fora a banha do peixe-boi da Amazônia, capaz de curar o desemprego endêmico, a espinhela caída da economia, de acabar com as frieiras sociais e de trazer a pessoa amada em menos de três dias. Do outro lado, economistas, sociólogos, filósofos e até banqueiros garantem que a dose é forte demais para quem já está com uma saúde financeira de média para baixa.

Desde 2015, a realidade é que a diferença entre ricos e pobres só tem aumentado neste país, que já é um dos mais desiguais do mundo. O governo Bolsonaro garante que a reforma da previdência veio para acabar com os privilégios. Resta saber o que esse governo considera privilégio e quem são os privilegiados para esse povo de Deus, que exalta espancadores e ignora as vítimas da violência.

Vamos colocar o pingo no i do INSS. O que Paulo Guedes propõe não é uma reforma, pois reforma, por princípio, ocorre quando você altera algo que já existia, promovendo uma mudança com o fim de aprimorá-lo e obter melhores resultados. Partindo-se desse ponto de vista, já está desmascarada a ideia de reforma da previdência, pois o que o governo propõe pode ser tudo, menos o aprimoramento do sistema previdenciário. No horizonte desponta a sua destruição.

O que o Messias propõe é a extinção de um sistema previdenciário constitucionalizado, que protege diversas áreas sociais, para a criação de um sistema de capitalização que tem como objetivo privilegiar os bancos. Eles querem que nós tenhamos ainda mais fé no sistema bancário, no qual o brasileiro já deposita toda a sua confiança financeira. O governo quer que nós acreditemos que esse sistema vai nos dar toda cobertura, sendo preciso, para isso, eliminar alguns "privilégios" constitucionais que o mercado não aceita.

São privilégios como o agricultor se aposentar com menos de 60 anos, o professor ter a regalia de parar com apenas 30 anos de contribuição e deficientes e idosos carentes receberem BCP de um salário mínimo. Afinal, precisamos economizar um trilhão. E o governo quer nos convencer, declamando essa poesia macabra de que é preciso tirar de quem não tem pra botar onde não cabe, como diria o saudoso Pinto do Monteiro. E por falar em Monteiro, as cidades com menos de 30.000 habitantes vão virar um grande deserto e seus temores, pois, sem os salários dos privilegiados aposentados para fazer a economia girar, restará apenas aquele cenário de duelo ao pôr do sol.

Resumindo, o governo Bolsonaro quer que nós confiemos a vida e o nosso restinho de futuro àquele banco que coloca uma correntinha nas canetas porque não quer perder nem uma esferográfica. Imagine do que o sistema bancário é capaz por lucros e dividendos.

Todo mundo sabe que o único banco que suporta aposentado é o banco da pracinha. Do jeito que “o coiso” vai, não demorará muito para nós também tenhamos o privilégio de pedir esmolas. Mas o importante é que ganhamos mais uma hora de vida com o fim do horário de verão, podendo passear de carro com o nosso filhinho sem o incômodo de amarrá-lo a uma supérflua cadeirinha de segurança.

ARTE: Alex Capuano/ CUT

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