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COLUNA

A marcha farisaica

EM NOME DE JESUS

ÁGORA

ÁGORAA coluna reflete a força da união e do pensamento libertário contra os grilhões da opressão, da ignorância e do obscurantismo de todas as épocas. Emerson Barros de Aguiar é pastor batista, escritor, articulista e editor do Portal Esquerda Virtual. Possui formação em teologia, filosofia, política, educação e direito em universidades do Brasil e da Espanha.

23/06/2019 13h28Atualizado há 6 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

POR EMERSON BARROS DE AGUIAR

Durante um retiro espiritual numa comunidade cristã francesa, um monge suíço me contou que detestava bandas marciais porque cada uma delas era, na verdade, “um pequeno exército”.

Ele me relatou parte dos horrores que enfrentou com sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Presenciaram a destruição de sua casa e perderam amigos, vizinhos e parentes em bombardeios e tiroteios. Depois tiveram de reconstruir as suas vidas em meio a escombros. Para sobreviver, chegaram a procurar batatas enterradas nas praças da sua cidade. Diante dos inúmeros horrores que presenciou ainda criança, tornou-se, além de um cristão autêntico, um antimilitarista convicto.

Fanfarras, hinos e marchas compõem a estética do militarismo, que apela para o sentimento patriótico em nível hipnótico, levando alguns à crença, ingênua e infundada, de que, se governada por militares, a sociedade estaria mais segura e melhor gerida.

Todo militar responsável e consciente sabe que as Forças Armadas desempenham um importante papel na proteção do povo, da soberania e dos poderes constitucionais. Mas também sabe que elas não podem extrapolar as suas funções constitucionais, tornando-se insubmissas à hierarquia estabelecida pela ordem democrática. Se as Forças Armadas impuserem, arbitrariamente, as suas próprias prioridades, institui-se uma tirania na qual os direitos fundamentais são preteridos e onde uma paródia de patriotismo assume o lugar da cidadania.

Como percebeu Joseph Campbell, as Forças Armadas de todo o mundo sempre lançam mão de uma forte iconografia que remete ao mito do herói, com o propósito de despertar reverência e veneração no imaginário coletivo.

O militarismo explora isso de maneira simplória: todo aquele que veste uma armadura ou uma farda é o detentor de virtudes heróicas que merecem ser admiradas. Foi contando com isso que Hitler, Mussolini, Franco, Pinochet e outros biltres da história apareceram sempre trajando os seus indefectíveis uniformes.
Sem dúvida, outro componente poderoso na mítica militarista é a marcha.

Marchas civis e paramilitares costumam preceder os regimes de excessão. A Marcha sobre Roma, liderada por Mussolini, ocorreu em 28 de outubro de 1922 e foi o marco inicial do fascismo italiano.

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, nome atribuído ao conjunto de manifestações realizadas durante o mês de março de 1964, foi o estopim para o Golpe Militar. Também serviu de inspiração para as mobilizações contra a presidenta Dilma, que ocorreram a partir de 15 de março de 2015, incitadas pela grande mídia e por robôs da internet. Ambos os eventos se caracterizaram por fortes traços fascistas, desde o princípio, como o apelo ao nacionalismo exacerbado e o intenso discurso de ódio. Tanto nas mobilizações de 1964 quanto nas de 2015, não havia apenas passeatas, mas verdadeiras marchas.

A “Marcha Para Jesus”, que, em sua essência, pode ter tido algum propósito evangelístico sincero, degradou-se ano após ano, até se transformar numa procissão farisaica, pagã, blasfema, afrontosa e vulgar, impregnada de messianismo fascista, fanfarronice religiosa, hipocrisia, fanatismo, afetação e pieguismo, onde Jesus e o seu Evangelho estão presentes apenas como semântica e na qual vis mercadores da fé oferecem os seus serviços a políticos infames e venais.

Um rebanho de gado marcado e manipulado em sua ingenuidade desfila credulamente no leilão eleitoral no qual será vendido para aqueles que o massacrarão.
Os patifes que conspurcam o Sagrado, as coisas santas, só se importam com aquilo que pretendem obter. São demônios egoístas, filhos da perdição, vasos de ira preparados para o Dia do Juízo. São aqueles de quem falou Jesus em Mateus 3:7 - “(...) Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?” - e também, um pouco mais adiante, em Mateus 23:33 - “Serpentes! Raça de víboras! Como vocês escaparão da condenação ao inferno?

“Morra a inteligência! Viva a morte!”, gritou o general franquista, Millán Astray, para o filósofo basco Miguel de Unamuno, então reitor da Universidade de Salamanca, no dia 12 de outubro de 1936, durante a fala do pensador espanhol contra o autoritarismo, sob a mira das metralhadoras e das pistolas falangistas, no Festival da Raça Espanhola.

Diante da provocação feita pelo discurso fascista de Astray, Unamuno não pôde se calar e respondeu: ”Este é o templo da inteligência, onde eu sou o sacerdote maior. E vocês estão profanando este sagrado recinto.”

De modo análogo, não podemos silenciar, mesmo diante das ameaças das milícias religiosas, que hoje são um importante braço do autoritarismo que assola o nosso tempo.

É nosso dever fazer a denúncia profética daqueles que falseiam e profanam os ensinamentos de Cristo em proveito próprio, rogando também por Misericórdia e Luz para todos eles, enganadores e enganados, porque, como nos disse Jesus Cristo, em Lucas 23:34: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem...”

Foto: Reprodução

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