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FÉ E POLÍTICA

FÉ E POLÍTICATiago Santos estudou no Seminário Teológico do Rio Grande do Sul. Fez bacharelado em Teologia na Escola Superior de Teologia e especialização em gestão e liderança na Faculdade São Judas Tadeu. É mestrando em Teologia pela PUCRS, assessor auxiliar da Aliança Bíblia Universitária (ABUB), membro da comunidade cristã Abrigo e diretor do Coletivo Abrigo. Fundador dos movimentos Cristãos Contra o Fascismo e Liberta.

02/07/2019 13h19Atualizado há 9 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

 

POR TIAGO SANTOS

A Bíblia sempre foi interpretada por homens, brancos, héteros, europeus, fundamentalistas, e esse único olhar conservador sobre o texto bíblico produziu uma série de tradições tóxicas, que justificou - e ainda justifica - muito abuso espiritual, segregação social e restrições políticas impostas por lideranças religiosas, direta ou indiretamente - neste caso por autoridades e parte da população sujeitas à influência do clero. As perseguições são muitas ao longo da história. Vão, desde perseguições às mulheres (no auge dessa perseguição as queimavam como bruxas na inquisição), até a defesa de políticas raciais como o Apartheid. Tudo justificado teologicamente por homens brancos.

Um desses equívocos sempre foi a ideia de que a cidade de Sodoma foi destruída por causa da homossexualidade, o que fez com que o termo "sodomita" estivesse atrelado à prática sexual homoafetiva, justificando, em muitos lugares e épocas, a repressão religiosa contra gays e lésbicas. Acontece que termos como "iniquidade" e "abominação", de modo geral, no subconsciente do crente, sempre significou "homossexualidade", "perversão sexual" e coisas ligadas à sexualidade. Ocorre que nenhum dos termos faz referência direta à sexualidade ou à homossexualidade. É revelador, já que isso diz mais sobre quem lê esses textos bíblicos e pensa em sexo homossexual do que sobre quem o pratica.

O profeta Ezequiel deixa claro qual a motivação de Deus para destruir a cidade de Sodoma e suas irmãs, como a cidade vizinha de Gomorra: "Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado." Ezequiel 16.49

O assunto do povo de Deus que negligencia a causa dos pobres e dos injustiçados está presente em toda a Bíblia (muito mais presente e ignorado do que o assunto da sexualidade). É a denúncia mais recorrente dos profetas e o tema principal dos sermões e parábolas de Jesus. Assim como essa história de Sodoma, mal interpretada, gera equívocos sobre a homossexualidade, a interpretação de outros textos também é passível de questionamento.

O incômodo que isso gera é decorrente da democratização de Deus e da Bíblia, antes monopólios privados de uma classe clerical, a serviço próprio e da manutenção de um sistema de privilégios e de privilegiados. Agora, ambos, Deus e a Bíblia, deixam de ser interpretados somente por homens padrões e passam a ser compreendidos por mulheres, mulheres lésbicas e trans, gays, negras e negros, imigrantes, indígenas, periféricos, que percebem ângulos dos mesmos textos Bíblicos e do mesmo Deus que aqueles que não foram oprimidos nunca tiveram sensibilidade para enxergar.

Imagem: Superinteressante

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