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Geografia Política: União Europeia e Mercosul em tempos de crise

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07/07/2019 10h52Atualizado há 5 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

POR BELARMINO MARIANO

Geógrafo, mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente e doutor em Sociologia pela UFPB. É coordenador do Grupo de Pesquisa "Olhares Geográficos" e professor da UEPB.

DOS QUASE 20 ANOS de negociação econômica entre a União Europeia e o Mercosul, 13 anos foram construídos pelos governos Lula e Dilma. Muito trabalho, muita diplomacia, muitos acordos ambientais e de recuperação de direitos sociais. Em seis meses, contudo, parece que o governo Bolsonaro pretende destruir tudo isso, pois sua política para o setor tem autorizado todo tipo de destruição do meio ambiente e o uso indiscriminado de agrotóxicos em nossa produção agrícola.

Em seis meses, Bolsonaro já liberou 239 tipos de venenos. Em seis meses, o desmatamento e a destruição da Amazônia legal aumentaram mais de 60%. Em apenas seis meses, o governo Bolsonaro estimulou o desrespeito aos direitos humanos e ameaçou o Estado Democrático de Direito.

Bolsonaro fez sua campanha eleitoral, agradando grupos políticos e econômicos que só pensam no lucro (grileiros, madeireiros, mineradoras ilegais, milicianos etc), e outro ponto grave foi defender caçadores esportivos, ameaçar o Ministério do Meio Ambiente e discutir o fechamento do IBAMA. Estimulou a ideia da exploração desordenada e a entrega da Amazônia, a abertura comercial das reservas ambientais, além da retomada compulsória dos territórios indígenas e dos povos das florestas.

O governo Bolsonaro, seguindo a cartilha de Donald Trump, ameaçou se retirar do Acordo de Paris, tratado que garante a adoção de políticas ambientais sobre mudanças climáticas. O Brasil da era Bolsonaro, assim, caminha no sentido contrário aos interesses da União Europeia, pois, aproximadamente 60 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, os europeus ainda buscam superar o fascismo, o nazismo e as guerras. A União Europeia trabalha pela unidade política, econômica, cultural e pelo respeito ao meio ambiente e aos povos.

O Brasil anterior ao Golpe de 2016 construiu uma agenda ambientalista séria, de melhoria das condições de vida das populações mais pobres. O Brasil anterior ao golpe investiu pesado em educação, habitação, em agricultura familiar e em políticas de energia renovável. O Brasil da era Lula/Dilma se tornou signatário de todos os tratados que tinham como núcleo a defesa do meio ambiente. Mas na era Bolsonaro, e em poucos meses, deterioraram-se praticamente todas as possíveis boas relações do Brasil com o mercado europeu.

Nesse momento, países como a França, a Alemanha, entre tantos outros que formam a União Europeia, negam-se a selar definitivamente os pactos que mudariam a vida econômica do Mercosul. Ao mesmo tempo, o agronegócio do Brasil se encontra ameaçado, justamente o grupo que deu total apoio à eleição de Bolsonaro. Os grandes pecuaristas, avicultores e outros criadores podem perder décadas de lucrativos ganhos, pois o desgoverno Bolsonaro conseguiu, no curto prazo de seis meses, afastar a América do Sul do mercado europeu ou da zona do euro.

Na semana passada, a Inglaterra proibiu a entrada de frango brasileiro no país, posição que vários portos da Europa também assumiram. O motivo especulado foi a presença de salmonella na carne de frango. Mas talvez possa ter sido o desrespeito à Rainha da Inglaterra praticado pelo Presidente Bolsonaro e que teve ampla repercussão internacional. Um inicial prejuízo gigantesco, que pode ser minimizado pelo próprio mercado brasileiro, que passaria a absorver os produtos com agrotóxicos e problemas fitossanitários que os europeus rejeitam.

De acordo com reportagem do El País, esse acordo da União Europeia com o Mercosul renderia para ambos os blocos cerca de 780 milhões de consumidores e um mercado mundial que representaria 25% do PIB internacional, com nítida vantagem para o lado europeu. Quer dizer, 20 anos de muita diplomacia estão escorrendo pelo ralo da incompetência e da falta de projeto de país do bolsonarismo. Nesse momento, Bolsonaro não prejudica apenas o Brasil, mas a América do Sul como um todo.

A atual minuta do acordo, que foi assinada no último dia 28, em Bruxelas, poderá ser uma versão piorada da dependência financeira, econômica e tecnológica dos países do Cone Sul em relação às potências europeias. Isso ocorre em um mundo fortemente disputado por países como Estados Unidos e China, que vivem uma verdadeira "guerra comercial". No caso do Mercosul, pode haver uma quebradeira total do parque industrial de países como Brasil e Argentina pela dificuldade de competir com a Europa em pé de igualdade.

Nessas condições, o país pode voltar à fase inicial da colonização como importador de bens industrializados e exportador de matérias-primas e bens primários da agropecuária. O mais certo desse novo pacto será a incapacidade que os países do Mercosul terão para cumprir as exigências do mercado europeu, fato que já acontece com alguns membros da própria União Europeia, a exemplo de Portugal, Espanha e Grécia.

Nesse caso, as fronteiras comerciais do Mercosul serão abertas, mas a exportação para a União Europeia pode ser dificultada ou impedida por barreiras como a carne de frango com salmonella ou a utilização pelo agronegócio nacional de vários pesticidas que não são permitidos na Europa, aspectos que estão dentro dos inúmeros alertas ambientalistas feitos nos últimos anos.

O outro aspecto desses acordos está nas profundas reformas em curso em países como Brasil, Argentina e Paraguai, em que a agenda está comprometida com o desmantelamento dos direitos trabalhistas, com reformas da previdência, retrocessos tributários, privatizações de estatais, entre outras, que enfraquecerão o papel do Estado com o fim de abrir espaço para que as empresas e o capital estrangeiro controlem efetivamente a economia sul-americana. Na Argentina, o confronto entre os trabalhadores e o governo é constante.

Vejam que a grande mídia investe muito na aprovação da reforma da previdência. Quem está por trás de todo esse bombardeio comercial nos telejornais do grupo Globo e de outros conglomerados de comunicação? Sem nenhuma dúvida, os grandes especuladores e empresários que pretendem tirar vantagens, a médio e longo prazo, de todo esse processo.

O Brasil se encontra em seu pior momento diplomático desde a redemocratização, pois as desastrosas declarações do Presidente Bolsonaro têm potencial para fazer o país mergulhar em um retrocesso econômico de pelo menos uma década. Em resumo, entre os escândalos da cocaína no avião da FAB, as afirmações sem sentido sobre o uso do nióbio como bijuteria, as dificuldades para competir com a União Europeia e a incapacidade de dialogar com os países do BRICS, só nos resta dizer: "Bye Bye Brazil".

Imagem: Agência DPA

Foto: Arquivo Lula

Foto: Eitan Abramovich (AFP)

Vídeos: Euronews/Europa Press

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