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Quando eles nos veem

O MARTÍRIO NEGRO

ENSINANDO A TRANSGREDIR

ENSINANDO A TRANSGREDIRInspirada na obra de Bell Hooks, a coluna aborda diversos temas do cenário político contemporâneo com olhares interseccionais, especialmente aqueles que dizem respeito ao gênero, à sexualidade e à raça. José Clayton Murilo C. Gomes pesquisa nas áreas de raça e processos de racialização, gênero e sexualidade.

25/07/2019 11h35Atualizado há 5 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

 

POR JOSÉ CLAYTON MURILO CAVALCANTI GOMES

Durante doze dias, Olhos que Condenam (When They See Us) foi a série mais vista na Netflix dos Estados Unidos da América. O sucesso estrondoso dos quatro capítulos, que contam a história da prisão de cinco jovens negros no Central Park, pode ser facilmente compreendido pelo modo como Ava DuVernay, diretora da minissérie, narra a história brutal trinta anos após a ocorrência dos fatos. Sufocante, a série escancara o modo como agentes de Estado – especialmente aqueles ligados ao sistema de justiça criminal – veem jovens negros como presas fáceis para perpetuar a lógica racista sob a qual a prisão está fundada.

Embora real, inúmeras pessoas que conheceram a história a partir da minissérie continuam a acreditar ser impossível que agentes do Estado – dos policiais aos julgadores – tenham coadunado forças e manipulado provas para prender, julgar e condenar cinco jovens negros pelo estupro de uma mulher branca. Os garotos, todos com idades entre 14 e 16 anos, passaram a ser conhecidos como Manada de Lobos ou Os Cinco do Central Park e ficaram entre 7 e 13 anos na prisão. Somente em 2002, um exame de DNA os inocentou, fazendo com que o Estado de Nova York pagasse a maior indenização da história aos jovens, cerca de U$ 41 milhões.

Ainda que a série seja sufocante, ela escancara o modo como, nos Estados Unidos, construiu-se o mito do estuprador negro. Angela Davis, ao tratar do assunto, demonstra como, ao longo de história, foram criados dispositivos de controle da população negra e o mito do estuprador negro foi, à época, um dos dispositivos justificadores da violência contra homens negros. Assim, sempre que uma onda de violência contra a comunidade negra se instalava, lá estava o mito do estuprador negro para justificar os linchamentos, as prisões, as mortes brutais.

A teórica Gerda Lerne nota que “o mito do estuprador negro de mulheres brancas é irmão gêmeo do mito da mulher negra má – ambos elaborados para servir de desculpa e para facilitar a exploração continuada de homens negros e de mulheres negras. As mulheres negras perceberam esse vínculo de modo muito claro e, desde o começo, colocaram-se na dianteira da luta contra os linchamentos”.

O caso dos Cinco do Central Park, quando ocorreu, despertou uma histeria coletiva em diversos grupos sociais, o que levou vários órgãos da sociedade civil e pessoas com grande expressão nacional, como Donald Trump, atual Presidente dos EUA, a pedir a volta da pena de morte no Estado de Nova York. No entanto, os cinco do Central Park foram apenas grãos de areia no meio de um sistema prisional abarrotado de pessoas condenadas injustamente com base tão somente na sua cor ou etnia.

Olhar para o sistema prisional e admitir que ele foi fundado com base no racismo e funciona hoje como uma máquina de prender corpos negros é o primeiro passo para enxergar a dura realidade experienciada pela negritude brasileira – e não me venham com o argumento de que existem brancos presos ou que os crimes de colarinho branco estão sendo punidos. Essa estratégia serve, como já argumentei, unicamente para legitimar um sistema penal seletivo e garantir a sua manutenção. Esse mimimi precisa acabar de uma vez por todas. 

Embora aqui o mito do estuprador negro não seja tão forte quanto nos Estados Unidos, diversos outros dispositivos funcionam para regular a vida das pessoas negras. De um lado, há a criação de diversos tipos penais direcionados para a população pobre – e negra, por óbvio – e, de outro, o poder decisório sobre a morte, sobre o poder viver e o fazer morrer. Quando eles nos veem, enxergam mais uma oportunidade de perpetuar seus desejos odiosos. Sobreviver neste cenário significa, como outrora disse, transgredir esses dados, significa transgredir aquilo que nos foi destinado, significa transgredir a prisão e a morte. Resistência nunca foi somente um lema, sempre foi um verbo.

Imagens: Reprodução/Netflix

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