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Um Cogito pra chamar de seu

CIBERNÉTICA E MODERNIDADE

PENSAR VIRTUAL

PENSAR VIRTUALPablo Capistrano é professor de Filosofia e Direito no IFRN. Também é escritor, mestre em metafísica e doutor em literatura pela UFRN.

14/08/2019 05h22Atualizado há 4 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

POR PABLO CAPISTRANO

 

Segundo Slavoj Zizek, o evento antecipado no calendário Maia para 2012 foi o momento em que o vídeo da música “Gangnam Style” chegou ao número espantoso de um bilhão de visualizações no YouTube. Enganava-se quem imaginava a chegada do novo aeon, o Ragnarök nórdico ou a segunda vinda de Cristo. O dia 21 de dezembro de 2012, previsto pelos antigos habitantes da península de Yucatan e esperado ansiosamente por décadas por quatro em cada cinco adeptos da nova era, foi a chegada de Psy (lembram dele?), o sul-coreano que colocou o mundo pra balançar com uma dancinha ridícula (o mundo adora dancinhas ridículas) que simulava um passeio a cavalo.

Difícil não se espantar com a sofisticação profética dos Maias, ao antecipar de forma tão exata o marco mais significativo do colapso da nossa civilização global.

Curiosamente, em julho do ano seguinte, o escritor italiano Franco Berardi (também citado por Zizek), conhecido como Bifo, registrou em um site suas impressões sobre Seul, capital do país que deu ao mundo a Samsung, a LG, a Hyunday e o hit supremo do Psycotrance. Ele escreveu: “Depois da colonização e das guerras, da ditadura e da fome, a mente sul-coreana, liberta do corpo natural, entrou tranquilamente na esfera digital com um nível de resistência cultural mais baixo do que qualquer outra população do mundo”.

Essa entrega absoluta ao poder magnético dos seus próprios smartphones, interagindo com tuÍtes, fotos e posts nas redes sociais, transformou, na visão de Berardi, o cenário da paisagem coreana em um contínuo deslocar silencioso de ilhas solitárias. Mônadas que deslizam pelo horizonte da cidade, completamente entregues a si mesmas e absolutamente imersas na dissolução semiótica da rede.

Esse paradoxal fenômeno de isolamento absoluto do Eu em meio a uma total dissolução do sujeito deve mesmo dar pano pra manga para os pensadores liberais. Se, por um lado, talvez seja essa entrega que explique o boom econômico sul-coreano, que inseriu o país de modo desconcertantemente eficaz no mercado da tecnologia global, por outro também pode ter sido essa mesma entrega que tenha explicado o fato de a Coreia do Sul ser um país com taxas incomparáveis de suicídio, tendo, em 2013, ultrapassado seus rivais japoneses e suecos.

A experiência de ser alguém, de pensar como se existisse um Eu evanescente habitando um corpo, foi formulada de maneira brilhante pelo pensador francês René Descartes. Sua aventura em direção à descoberta (ou invenção) do Eu que pensa (o Cogito que leva ao famoso ergo sum das suas meditações) foi a grande rocha epistêmica à qual Descartes se agarrou para suportar as ondas de instabilidade política do século XVII e a furiosa melancolia que o atacava de tempos em tempos.

Foi esse Cogito, essa fortaleza de discurso, esse arranjo lógico que parece estar pairando sobre o mundo, descolado da mecânica das coisas, boiando em uma substância pensante digital, que ofereceu à Modernidade a noção política de individuo tão cara à sociedade de mercado.

Descartes foi injustiçado pelos filósofos da mente no século XX. Impressionados com os avanços da neurociência ou embalados pela “virada linguística” de Wittgenstein e Heidegger, muitos pensadores que se debruçavam sobre o chamado “Problema da consciência” descartaram Descartes (olha o trocadilho) e sua visão desse Eu superior posto acima das coisas do mundo. Mas Descartes está vivo e passando muito bem, obrigado. Em pleno século XXI, ele é considerado por muitos como o avô dos modernos computadores.

Muito antes de Allan Turing ter escrito seu artigo On Computable Numbers (1936), que oferece o esquema lógico de um computador moderno, Descartes já havia construído uma concepção digital do pensamento. As ideias, ordenadas pelo Cogito, não fariam parte de um fluxo contínuo (como depois Willian James tentou mostrar), mas seriam postas em blocos definidos uma ao lado da outra, entrecortadas por intervalos vazios imperceptíveis, em um arranjo que simularia a famosa linguagem de 00 e 01 das máquinas digitais.

É curioso que o sujeito que tenha formulado essa ideia digital do pensamento seja também aquele que ofereceu um Cogito para a Modernidade chamar de seu. É um campo ainda a se explorar melhor essa influência de Descartes na criação de uma das crenças liberais mais consolidadas: a noção de que somos “indivíduos” e que o nosso Eu pensante racional, posto sobre a vida como a tela de um smartphone, é o fundamento que garantiria minha liberdade de escolha.

Esse juiz eterno que estrutura epistemologicamente minha ação na praça do mercado é um dos pilares do capitalismo utópico, que busca a terra sem males do livre mercado, onde Eus pensantes, livres em sua fortaleza digital do pensamento, contratam livremente entre si, definindo o modo como querem viver, o que querem produzir ou comprar, sem a interferência de nenhum superego estatal que os amolaria com suas exigências sádicas.

Essa utopia da liberdade capitalista deve bastante ao modelo de Eu descoberto (ou inventado) por Descartes e sua ideia digital do pensamento.

Se o homem liberal começou a ser desenhado tão brilhantemente entre os séculos XVI e XVII, pelas meditações do ex-aluno da escola jesuíta de La-Flechè, hoje talvez ele ainda esteja chegando ao seu colapso definitivo, quem sabe na Coréia do Sul, dançando o Gagnam Style, ou exercendo por aí a suprema liberdade digital de caçar pokemons através da tela do seu smartphone.

Imagem: frontispício da primeira edição de Discurso do Método

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