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Evangelho de Jesus segundo a Estação Primeira de Mangueira

UM CASO DE PROFECIA EXTERNA?

COLUNISTA CONVIDADO

COLUNISTA CONVIDADOEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

14/08/2019 12h37Atualizado há 4 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

 POR GERALDO NATALINO

É padre há 25 anos (jubileu) na diocese do Rio de Janeiro, mestre em Teologia Sistemático-Pastoral pelo PUC/RJ e doutor em Ciência da Religião pela PUC/SP. É conhecido popularmente no Complexo de Manguinhos como Padre Gegê.

COMO RELIGIOSO CATÓLICO, acolho a notícia do samba enredo da Mangueira para o Carnaval de 2020 como uma provocação às igrejas cristãs amordaçadas neste momento dramático e trágico na história do Brasil. Provocar (provocare) é "chamar para a briga", incitar, desafiar... Desse modo, o samba enredo da Mangueira de 2020, "A Verdade vos Fará Livres", pode constituir um desafio aos que se dizem cristãos!

Certa feita, num livro antigo de Leonardo Boff, conheci o termo "profecia externa". Para o teólogo, a expressão se referia à possibilidade de a sociedade, de diversificadas formas, exercer a profecia, isso é, falar em nome de Deus na defesa da vida. Dizendo de outro modo, pessoas e grupos, como, por exemplo, movimentos sociais, em princípio, não religiosos, podem, às vezes com mais coragem do que os que se dizem seguidores ou seguidoras de Jesus, viver e lutar por um mundo de amor, justiça, igualdade, democracia e paz.

Nesse horizonte, recebo o samba enredo da Mangueira como uma "profecia externa". O último pleito eleitoral revelou setores cristãos (católicos e evangélicos) despudoradamente aliados a grupos políticos promotores da violência e da matança dos pobres e indefesos. De forma explícita e velada, grupos cristãos se apresentaram como coniventes com os esquadrões da morte.

E todos esses grupos têm hoje nas mãos o sangue dos Wajãpi e responderão no juízo final por suas vidas brutalmente ceifadas. Muitos cristãos, sobretudo da hierarquia religiosa, jamais seriam capazes de assassinar, mas isso não os impede de amolar a faca para que outros o façam. Em resumo, a capacidade de o cristianismo ser aliado dos vitimizados da história foi mais uma vez, terrivelmente, posta em cheque.

De que lado estão os cristãos, do lado das vítimas ou dos carrascos? A Bíblia está repleta de denúncias acerca de profetas que se venderam e se calaram diante das atrocidades da história. O próprio Jesus aventou a possibilidade de, em face do silenciamento dos profetas, as pedras se pronunciarem na defesa da vida ("as pedras gritarão").

Sendo assim, é na contramão da apresentação, por parte de muitos cristãos, de um Jesus Cristo "açucarado", conivente e insensível ante a dor dos pobres e segregados de toda sorte (indígenas, negros, mulheres, gays, terreiros etc..), que a Estação Primeira de Mangueira, a meu juízo, profeticamente, pode estar mais próxima do Jesus dos Evangelhos do que muitos que não tiram a Bíblia debaixo dos braços e sabem citar de cor quaisquer capítulos ou versículos. Terá a narrativa da Mangueira mais pertinência e relevância que a dos doutos (e quase sempre arrolhados e encastelados) biblistas?

A propósito, o termo "Evangelho" quer dizer notícia feliz, interessante, oportuna e significante... Decerto, é razoável pensar que o que interessa às vítimas seja diametralmente oposto ao que interessa aos verdugos; a notícia oportuna à senzala não é a mesma desejada pela casa-grande.

Considerando que Jesus não é propriedade privada de nenhuma igreja e que o Espírito Santo é livre e, por isso, fala onde quer e como quer, é possível pensar num Deus falando na Sapucaí, às vezes, surpreendentemente, de forma mais potente do que nas igrejas.

Ler o Evangelho é também um ato político, uma interpretação que nasce de um "lugar de fala", nos termos de Djamila Ribeiro. E não existe leitura (inclusive, bíblica) neutra! Praza a Deus, o discurso da Mangueira, como diz Conceição Evaristo, consiga, na potência evangélica do samba, acordar a casa grande de seus sonos injustos!

A Verdade que liberta o oprimido, ao mesmo tempo, desnuda e denuncia as mentiras do opressor! Desejo, pois, que as igrejas cristãs se convertam do olhar colonialista, preconceituoso e racista para com o Carnaval e tantas outras expressões culturais e religiosas afro-brasileiras. É hora de passarmos de uma política vincadamente policialesca para uma política do diálogo e da troca positiva. Ademais, o samba também evangeliza, inclusive aos que se dizem cristãos! Se as "pedras" podem profetizar, por que o samba não pode?

Vale repetir: o Espírito Santo é livre e sopra onde quer! As vezes fala onde menos se espera... Deus é desconcertante! Da minha parte, como pesquisador das religiosidades das populações subalternizadas, estou, pessoal e visceralmente, ansioso e esperançoso para ver/ouvir a exegese bíblica do samba, a versão, a hermenêutica decolonial de Leandro Vieira - o Evangelho de Jesus segundo a Estação Primeira de Mangueira!

Foto: Veja

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