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CRÔNICA VIRTUAL

CRÔNICA VIRTUALMarcelo Adifa é jornalista, engenheiro e escritor, com livros de poemas e romances publicados.

14/08/2019 14h46Atualizado há 4 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

 

POR MARCELO ADIFA

"Pai era uma pessoa amargurada, triste das oportunidades que perdeu. Não falava de si ou do passado. Não contou exatamente como ficou com queimaduras nas pernas, após ser levado para esclarecer 'algumas coisas', em uma delegacia de Santos, nos anos 60, e sumir por alguns meses das vistas de todos. Inclusive da própria delegacia em que deveria estar.

Reapareceu depois que um tal Rubens Paiva cobrou favores de amigos. Nunca conseguimos agradecê-lo adequadamente; sumiu também e não foram poucos os amigos a procurá-lo. Este devia incomodar muito. Ao contrário de Pai, ele não voltou meses depois.

Com as pernas queimadas, Pai parou de jogar futebol - e era sua profissão. Jogava bem, chegou a ser reserva de Rei, depois decaiu para bater bola em terrão no interior e minguar como operário têxtil, quando as propostas com a bola lhe faltaram. Mas nem falava de nada.

Descobrimos seu passado em fotos e jornais, sua ficha no DOPS sem nunca ter roubado banco ou pegado em metralhadora ou pensado em guerrilha. Tinham espalhado que ele levara um pacote a pedido de um amigo em uma excursão do seu time para o México. De boato em sopapo, nada sabemos. O amigo ajudava outros que apanhavam e conseguiram sair do Brasil. Fez isso até 76, quando uma casa em que estava foi crivada de balas na Lapa.

Pai morreu já faz tempo, jovem até, mergulhado em rancores, dívidas e vícios. Na família, falam que o irmão o envenenou. Não duvido. Já não falava com nenhum dos filhos, nem fui ao velório. Lembrança das surras que tomei sem saber razão. Da arma no rosto em uma vez que fui defender Mãe. Mas ele não dizia nada.

De Pai, falavam que nem sempre fora assim. Que foi mudando a partir daqueles meses em que sumiu. Quem sabe o presidente que tudo acha saber possa nos dizer o que aconteceu com ele? De quando algo que não conhecemos mudou as nossas vidas.”

Ilustração: Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco e Jose Gamarra.

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