Esquerda virtual
COLUNA

“O mal como o não-exercício do pensar?”

SOBRE HUMANIDADE, MEDIOCRIDADE E FALTA DE JUÍZO CRÍTICO

ENSINANDO A TRANSGREDIR

ENSINANDO A TRANSGREDIRInspirada na obra de Bell Hooks, a coluna aborda diversos temas do cenário político contemporâneo com olhares interseccionais, especialmente aqueles que dizem respeito ao gênero, à sexualidade e à raça. José Clayton Murilo C. Gomes pesquisa nas áreas de raça e processos de racialização, gênero e sexualidade.

22/09/2019 19h51Atualizado há 3 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

 

POR JOSÉ CLAYTON MURILO CAVALCANTI GOMES 

Desde o dia 25 de julho, data em que escrevi o texto intitulado “Quando eles nos veem”, observei, atônito, alguns acontecimentos e declarações que, sem dúvida, não chocaram tão somente a mim. Nestes quase dois meses sem escrever, passei a olhar mais atentamente para o modo como as redes sociais se consolidaram enquanto zona aberta do discurso de ódio. E, por isso, acessar qualquer rede social em que seja possível o compartilhamento de notícias tem se tornado uma tarefa dolorosa. Ler os comentários, por sua vez, é uma atividade difícil para qualquer pessoa que deseje manter a sanidade mental ou uma suposta “fé na humanidade”, especialmente se as notícias versarem sobre religião, meio ambiente, educação ou política.

Outro dia, em uma rápida passagem pela linha do tempo do Facebook, me deparei com o comentário de um pastor – cuja igreja defende a isenção política – em uma publicação sobre a ação do atirador de elite que ensejou a morte do jovem que sequestrou um dos ônibus do Rio de Janeiro e a aparente omissão dos snipers quando Eloá foi sequestrada e morta dentro de um apartamento. “A culpa da morte de Eloá não foi do cara que sequestrou ela. Eloá foi morta pela esquerda”, dizia ele.

Esse comentário de ataque à esquerda compõe uma das linhas mais amenas de fake news e discurso de ódio desencadeadas na internet desde a última eleição. Digo isso porque, ao observar notícias de cunho geral, que vão desde o chicoteamento de um jovem que foi pego furtando até o espancamento e morte de jovens gays, há uma massificação das reações de comemoração e de comentários festejando os atos, havendo, também, manifestações de apoio ao Presidente Jair Bolsonaro – o que me leva a questionar se os comentários são, de fato, de pessoas ou de robôs.

Acontece que, como forma de contra-argumentar e, portanto, de disputar a política narrativamente, setores mais progressistas têm investido no argumento da desumanidade e da monstruosidade das pessoas que estão expressando o ódio acumulado. Quando penso nessas pessoas, contudo, não vejo desumanidade ou monstruosidade, mas sou, inexoravelmente, levado à imagem de Eichmann.

Adolf Eichmann era um oficial do exército nazista que foi preso na Argentina e julgado em Israel por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Hannah Arendt argumentou, ao assistir o julgamento de Eichmann, que ele não era um monstro antissemita, mas somente um burocrata medíocre que abandonou o senso crítico e a possiblidade de enxergar as consequências dos seus atos.

Pois bem, ao olhar os comentários e falas caracterizadas como monstruosas, enxergo nessas pessoas parte do que Hannah Arendt enxergou em Eichmann: mediocridade e falta de juízo crítico e reflexivo. Assim, não vejo nos assíduos e odiosos comentaristas das redes sociais monstruosidade ou desumanidade. Enxergo, pelo contrário, humanidade. Uma humanidade banhada pela mediocridade, falta de senso crítico e, diria eu, pela falta de compreensão das mudanças enfrentadas pela sociedade.

Preconceituosos, intolerantes ou medíocres que se escondem atrás de uma tela para destilar ódio não são estranhos à humanidade. Essas pessoas são, na verdade, permeadas por uma das expressões do mal: o mal banal. Não são “naturalmente” violentas ou demoníacas. São más, visto que, como outrora disse, “o mal é banal e o horror pode ser cometido por qualquer um.” O mal se manifesta não por razões sobrenaturais ou desconhecidas, mas pela falta da atividade de pensar. [...] “Ou será que podemos detectar uma das expressões do mal, qual seja, o mal banal, como fruto do não-exercício do pensar?” (Hannah Arendt). No fim, além de más, essas pessoas são odiosas na exata medida em que odeiam.

Imagem: El Pais

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