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BOLSONARISMO

Bolsonaro na ONU: sobre fantasias, delírios e conspirações

O MANICÔMIO BRASILEIRO PERANTE OS PAÍSES DO MUNDO

A POLÍTICA

A POLÍTICAAgassiz Almeida Filho escreve sobre a Política, o Direito e as suas implicações no Brasil de hoje. Além de tradutor e articulista, é professor de Direito na UERN e autor de Fundamentos do Direito Constitucional (2007), Formação e Estrutura do Direito Constitucional (2011) e 10 Lições Sobre Carl Schmitt (2014).

25/09/2019 08h48Atualizado há 3 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

 

O PRESIDENTE JAIR Bolsonaro abriu a 74ª Assembleia Geral da ONU. Seu discurso, mescla de estupidez e de um anacronismo de amplo espectro, arrastou o Brasil para um cenário onde imperam o ridículo e o pior reacionarismo, com a defesa inconsequente de delírios, fantasias e conspirações. Foi fruto de uma mente limitada, atingida, não se sabe, por algum tipo de decrepitude e esfacelamento moral, sujeita às fabulações mais exóticas e sem sentido. O mundo testemunhou uma caricatura de ditador falando para um imaginário auditório da Guerra Fria. Foi isso que Bolsonaro mostrou ao mundo.

A repetição do mantra de absurdos bolsonaristas perante a Assembleia Geral da ONU é um fato grave. Indica que o presidente da República pode realmente acreditar no seu próprio discurso político e nas imbecilidades que seus seguidores mais exaltados vomitam nas redes sociais. Depois da ONU, o bolsonarismo se agrava porque fica claro que seus principais atores são um grupo de lunáticos que realmente negam a ciência, a história e qualquer tipo de ponderação racional acerca da realidade. O discurso reflete as posições desse núcleo político e do seu inacreditável mundo paralelo.

A cúpula do bolsonarismo está numa cruzada contra a civilização que já tem seus próprios símbolos: a defesa do terraplananismo, a ideia de que as mulheres não devem ingressar na universidade e a luta contra um imaginário movimento global que pretende acabar com a soberania dos países. O braço armado, as facções religiosas e os mentecaptos de todos os tipos, cada grupo a sua maneira, contribuem para que o bolsonarismo entre para a história como uma tentativa de fundar uma nova idade das trevas.   

Mas a grande conspiração no discurso de Bolsonaro foi a ameaça comunista. Grupos terríveis de militantes e espiões que supostamene se dedicariam a arrastar o mundo livre para o mais sombrio cenário de corrupção, mentiras e ataques à família. O regime cubano foi mencionado várias vezes no discurso, como argumento a partir do qual o presidente brasileiro pôde desavergonhadamente enaltecer a ditadura de 64 e sua própria visão distorcida acerca da democracia. Num etéreo mundo de miragens e messianismo de botequim, Bolsonaro se posicionou como o defensor da verdade, da religião e de toda a liberdade. Parecia pregar para um público de fiéis fanatizados, cúmplices dos seus desvarios e insanidades sem qualquer fundamento. Mas o capitão estava perante o mundo. 

As mentiras contadas por Bolsonaro na ONU são resultado de um plano delirante, onde ocupa lugar de destaque a fantasia de controlar a realidade através da simples negação daquilo que acontece. De certa forma, porém, Bolsonaro acredita nas suas próprias palavras. Nega o que está embaixo do seu nariz porque também é um bolsonarista de carteirinha, o que o leva a desconfiar da ciência, a refutar os consensos estabelecidos e a acreditar naquilo que militares de pijama e religiosos mal-intencionados sussurram nos seus ouvidos frágeis e receptivos. Na deformada mente de Bolsonaro, seu governo é o ponto de inflexão a partir do qual foram resgatadas a verdade, a esperança e a fé dos brasileiros.

Perante a ONU, o presidente Bolsonaro afirmou a vinculação do seu governo com a preservação do meio ambiente, com a proteção dos interesses indígenas e com a defesa da soberania nacional. Disse textualmente que "o Brasil reafirma seu compromisso intransigente com os mais altos padrões de direitos humanos, com a defesa da democracia e da liberdade de expressão, religiosa e de imprensa." Com isso, podia ter estarrecido um sem número de pessoas que conhecem sua íntima relação com os torturadores, sua tara pela censura em todos os níveis, sua ligação com garimpeiros inescrupulosos, milicianos e ruralistas que matam ou sua vergonhosa submissão aos interesses norte-americanos. Mas Bolsonaro não estarreceu ninguém, pois essas pessoas já sabem que o capitão Jair Messias é um medíocre projeto de autocrata com graves dificuldades psiquiátricas.    

Toda essa fuga da realidade é perigosa porque um homem que se julga escolhido por Deus para levar a justiça e a paz para os povos naturalmente não reconhece barreiras institucionais e outras limitações ao exercício do poder. No entanto, a insanidade mental do seu líder e os delírios mais improváveis do bolsonarismo são também uma espécie de vacina contra seus efeitos mais deletérios. Afinal de contas, a mensagem política desse diabólico movimento criminoso é tão desconectada do mundo real e tão fantasiosa que a probabilidade de que venha a se impor como fato concreto é praticamente inexistente. Seria necessário um imenso batalhão de idiotas, em número muito superior às hostes bolsonaristas atuais, para que o seu programa fascista conseguisse efetivamente se impor, convertendo Bolsonaro numa espécie de Hitler tropical em busca do holocausto comunista. 

Montagem: Revista Veja

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