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COLUNA

Resistência discursiva em tempos monstruosos

O BOLSONARISMO E A DEGRADAÇÃO DO PÚBLICO

PENSAR VIRTUAL

PENSAR VIRTUALPablo Capistrano é professor de Filosofia e Direito no IFRN. Também é escritor, mestre em metafísica e doutor em literatura pela UFRN.

29/09/2019 10h27Atualizado há 3 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

POR PABLO CAPISTRANO

Uma das coisas positivas que a gente pode extrair dessa última semana de setembro de 2019 é que parece que há sinais de uma reação contra as monstruosidades que nos acostumamos a ouvir pela esfera pública, nos últimos tempos.

A demissão de um comentarista potiguar, que disse em uma rádio que a sueca Gretha Thunberg era uma “vagabundinha histérica” que fazia greve e que “precisava de sexo”, mostra que ainda há limites morais para o discurso público. Isso é um sinal auspicioso para os que combatem diuturnamente o bolsonarismo.

Afinal, uma das intenções desse movimento neo-fascista, que ameaça tomar conta do Brasil, é justamente a de explodir todos os limites da nossa moralidade discursiva, empurrando os limites da fala pública para os extremos.

As subjetividades autoritárias, alçadas à categoria de comentaristas políticos, ministros de Estado ou simples porta-vozes ideológicos do novo governo, atuam, nesse sentido, meio que como clones digitais do presidente que elegeram.

Eles falam coisas monstruosas, agressivas, revoltantes e inadmissíveis. Destilam um tipo escatológico e brutal de retórica primitiva que, em circunstâncias normais de temperatura democrática, ninguém pensaria em dizer em público sem uma forte reação da comunidade de falantes.

Quando fala, o bolsomínio típico, a espelho do seu “mito”, na verdade procura emitir aos demais seres humanos que partilham com ele a mesma esfera pública uma mensagem de poder. Quando nada acontece com o emissor desse tipo de monstruosidade retórica, quando não há reação moderadora por parte da comunidade de fala, o bolsomínio militante reforça para si e para os outros a mensagem: “Vejam como eu sou foda. Vejam como eu sou poderoso. Falo o que eu quiser. Sou superior a vocês. Posso tudo”.

Foi com base nessa estratégia que o atual ocupante do palácio do Planalto fez toda sua carreira política. Ser desagradável, monstruoso, irritante e completamente sem noção do que diz no exercício do cargo que ocupa parece ser um pré-requisito essencial para fazer parte do governo Bolsonaro. Do ministro da economia ao da educação, todo mundo que se aproxima desse governo parece se esforçar para repetir o padrão do “mito” que escolheram como presidente.

Sim.... Claro, ofender mulheres é uma outra característica da turba.
Da primeira dama da França, passando por Fernanda Montenegro (nossa maior atriz e referência fundamental da cultura nacional), até a jovem sueca ativista do clima, a horda bolsonarista, por convicção, distúrbio ou simples malcaratismo, atua para corroer as bases mínimas da educação e do bom senso discursivo, compartilhadas pela nossa moralidade pública.

Por isso, a reação que se seguiu aos comentários do advogado potiguar na 96 FM e depois na TV Tropical foram tão importantes. Reestabelecer a civilidade no discurso público e reconfigurar as bases de um contrato social que nos permita reconstruir o diálogo e salvar o que resta da nossa parca democracia implicam reagir com veemência a esse tipo de pilantragem fascistoide. Essa é uma das inúmeras trincheiras que os que resistem ao surto autoritário precisam cavar para montar a tão falada resistência.

 Ilustração: J. R. Mora

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