Esquerda virtual
COLUNA

O produtivismo estéril e outros mitos mortais

O BOLSONARISMO E O INCREMENTO DA EXPLORAÇÃO SOCIAL

ÁGORA

ÁGORAA coluna reflete a força da união e do pensamento libertário contra os grilhões da opressão, da ignorância e do obscurantismo de todas as épocas. Emerson Barros de Aguiar é pastor batista, escritor, articulista e editor do Portal Esquerda Virtual. Possui formação em teologia, filosofia, política, educação e direito em universidades do Brasil e da Espanha.

04/10/2019 06h30Atualizado há 2 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

 

POR E. BARROS DE AGUIAR

Na “Cidade do Sol”, a utopia de Campanella, um dia a humanidade seria poupada de trabalhos extenuantes, perigosos e repetitivos por causa das máquinas que os realizariam em seu lugar. Com isso, as pessoas estariam livres para se dedicar a tudo o que verdadeiramente as faz humanas: ciência, música, dança, pintura, literatura, teatro, poesia... Enfim, estariam liberadas para exercer a sua criatividade e para expandir os seus horizontes culturais sem os imperativos da sobrevivência material.

De fato, o advento das máquinas ocorreu, mas a opção da economia liberal não foi pela emancipação humana. As máquinas, em vez de preservarem os homens de esforços desnecessários, foram usadas para substituí-los e empobrecê-los.

Na distopia capitalista que frustrou as previsões campanellanas, os trabalhadores foram despojados de suas antigas funções e substituídos pelas máquinas sem que lhes fossem atribuídas novas responsabilidades, mais compatíveis com a sua humanidade, e, sobretudo, sem que lhes fossem garantidas as condições mínimas para continuar sobrevivendo. É o capitalismo com o seu condão de transformar sonhos em pesadelos.

Numa época em que todos os recursos tecnológicos disponíveis poderiam, de fato, garantir que a humanidade pudesse não somente subsistir, mas viver com recursos abundantes e dispor de tempo livre para ser cada vez mais produtiva, temos, na verdade, uma exclusão econômica e social muito maior. Isso é decorrência da opção por um modelo econômico baseado apenas no lucro em função da escassez, gerando miséria e privação, de um lado, e desperdício e ostentação, de outro.

A lei da oferta e da procura foi elevada à condição de dogma religioso, mesmo diante de um momento histórico no qual as condições objetivas disponíveis são capazes de atender plenamente as principais carências materiais da humanidade.

“Nada deve ser dado de graça”, dizem os radicais liberais. Mas o próprio direito de herança, vigente em todas as legislações de inspiração liberal, é o dispositivo que confere aos descendentes das grandes fortunas o direito de receber, graciosamente, bens e haveres, pelo simples fato de terem sido gerados por aqueles que já os possuíam antes, sem nenhum outro “mérito” além desse.

De modo paradoxal, aqueles que simplesmente herdam propriedades ou são apoiados pelas melhores e mais propícias condições materiais estão sempre entre os maiores defensores da “meritocracia”. Mas nenhuma contradição se equipara à combinação de má-fé, estupidez, obtusidade mental, canalhice e patifaria que a nova ideologia da classe média brasileira, o bolsonarismo, prescreve como solução para os problemas do país.

Resumidamente, o modelo de sociedade que a elite neoliberal e o bolsonarismo defendem é o extermínio dos miseráveis e uma jornada ininterrupta de trabalho para os pobres, a fim de que possam continuar a desfrutar de tempo e de recursos abundantes para prosseguir dedicando as suas vidas inúteis e perversas a conspirar e a cometer crimes contra a humanidade e a natureza.

O mito do “Mito” bolsonarista já é uma perversão de qualquer conceito de narrativa fantástica ou lenda, mas a formulação de sua ideia de progresso é, em si mesma, causadora da mais legítima e profunda náusea.

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