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O sofrer, o agir, lutar: resistência

O NORDESTE NÃO FOGE À LUTA

ENSINANDO A TRANSGREDIR

ENSINANDO A TRANSGREDIRInspirada na obra de Bell Hooks, a coluna aborda diversos temas do cenário político contemporâneo com olhares interseccionais, especialmente aqueles que dizem respeito ao gênero, à sexualidade e à raça. José Clayton Murilo C. Gomes pesquisa nas áreas de raça e processos de racialização, gênero e sexualidade.

01/11/2019 15h27Atualizado há 2 semanas
Por: Agassiz Almeida Filho

JOSÉ CLAYTON MURILO CAVALCANTI GOMES

Nove estados, cerca de 240 localidades e mais de oitenta municípios atingidos. Essa é a conta preliminar do petróleo cru que há mais de 60 dias atinge a costa do Nordeste. Segundo a Marinha, somente em Sergipe foram retiradas mais de 900 toneladas de óleo, quantidade que, se somada ao total recolhido no restante do Nordeste, representa um dos maiores desastres ambientais experimentados pelo Brasil. Acontece que, embora expressivas, as toneladas de piche – nome pelo qual é conhecido o petróleo cru – que infectam as praias nordestinas não foram recolhidas, em sua maioria, pelo governo federal, conforme prevê o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional (PNC), mas por grupos de voluntários, sendo estes majoritariamente trabalhadores que dependem da praia e da pesca para sobreviver, o que demonstra ainda mais o descaso do governo federal com o povo do Nordeste.

Sem ajuda do Governo Federal, os voluntários atuam na precariedade, usando, quando muito, luvas e botas para entrar em contato direto com o material tóxico. A falta de equipamentos de proteção adequados fez com que diversas pessoas que manusearam o petróleo fossem hospitalizadas com suspeita de intoxicação. Bolsonaro e sua malta, contudo, mantêm um discurso institucional de que o governo tem atuado satisfatoriamente frente ao caos. A prática, entretanto, mostra o contrário; e a falta de ações é epistemológica. Se na lógica democrática a figura do “Estado” se manifesta através de ações positivas, o “Estado” chefiado por Bolsonaro – cuja dinâmica operacional é neoliberal na economia e conservadora nos costumes – se apresenta, por vezes, através do não-fazer. Em relação ao Nordeste, então, o Estado de Bolsonaro se revela por meio do deixar de fazer.

Essa lógica, contudo, não é despretensiosa. Os danos causados pelo petróleo cru no meio ambiente, na saúde da população que entrou em contato com ele, e, por consequência, no turismo são inestimáveis, mas cumprem a lógica neoliberal de gestão das populações. Essas vidas não são, em parte, importantes para o capitalismo e, neste caso, também são desinteressantes para a estratégia política rasa de Bolsonaro. Afinal, o Nordeste é a região na qual Bolsonaro tem a maior taxa de reprovação. Se as vidas atingidas pelo óleo não possuem valor político, sobre elas recai a condição inumana, tornando-as descartáveis, indignas de ação.

É bem verdade que o trabalho de limpeza dos voluntários na costa do Nordeste tem rendido frutos, mas não consigo enxergar, nesta situação, motivos para comemorar. Embora organizações como o Projeto Público tenham denunciado o governo à Comissão Interamericana de Direitos Humanos pelo descaso com o litoral nordestino, o governo continua e possivelmente continuará a se mostrar inerte, já que gerir a vida e a morte é parte da ação coordenada e imperativa dos governos no mundo contemporâneo. Por isso, acredito, tal como Angela Davis, que processos eleitorais não são capazes, por si só, de interromper esse ciclo. A mobilização social é necessária para que a superação dessa política de mortes aconteça. Do derramamento de óleo no litoral do Nordeste ficarão muitas lições, mas um aviso será mais imperioso que qualquer uma delas: resistiremos.  

Foto: Leo Malafaia/AFP

 

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