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COLUNA

Tudo posso naquele que me fortalece

FILIPENSES 4:13

ESPIRITUALIDADE CÍVICA

ESPIRITUALIDADE CÍVICAUma fé relevante para a sociedade. João Paulo Berlofa é Pastor na Igreja da Garagem, em Mogi das Cruzes, fundador do movimento INADEQUADOS, co-fundador e coordenador da ONG Missão Intensidade, filósofo e pensador da Teologia da Missão Integral.

27/11/2019 21h51Atualizado há 3 semanas
Por: Agassiz Almeida Filho

POR PR. JOÃO PAULO BERLOFA

Na década de 1990, o Brasil foi inundado por igrejas evangélicas. Se você pesquisar os números, vai perceber que nos últimos 30 anos o movimento protestante cresceu mais do que qualquer outro movimento social. E isso seria motivo de muita felicidade para nós, só que não!

Por incrível que pareça, ao mesmo tempo em que crescia o número de evangélicos e de igrejas, crescia também a violência, a corrupção, a segregação, o preconceito, o divórcio etc.

E a resposta para esse fenômeno paradoxal é simples: o que cresceu não foi o número de pessoas convertidas ao evangelho, mas sim o número de pessoas interessadas em se dar bem na vida e que descobriram na religião evangélica a fórmula mágica da paz, conhecida como triunfalismo.

O triunfalismo é uma vertente da teologia da prosperidade, que, na minha opinião, deve ter sido sistematizada pelo próprio satanás. Essa teologia prega que uma pessoa com fé em Deus pode alcançar tudo o que ela quiser, que nada dará errado, que ela será uma vencedora, que ela é “cabeça e não calda”. Afinal, TUDO PODES NAQUELE QUE TE FORTALECE.

E mais uma vez os religiosos “estupraram” as escritas bíblicas para conseguir delas o respaldo para o seu bel-prazer. Como temos feito em cada texto dessa série, vamos simplesmente ler algumas palavras a mais do verso citado, e, provavelmente, já teremos a interpretação correta.

Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece (Filipenses 4:13-14 – nova versão internacional).

Pronto, interpretação concluída. Fica nítido, após a leitura não condicionada, que o que o apostolo Paulo está falando não tem absolutamente nada a ver com esse demônio do triunfalismo. O que o Paulo está dizendo à igreja de Filipo é que ele já tinha passado de tudo em sua vida, desde o melhor ao pior, e, após passar por tudo isso, ele entendeu que não são as circunstancias que fazem ele feliz ou não, mas sim a esperança que ele tinha em Deus.

Mas vamos pensar um pouco além... Essa carta do Paulo aos filipenses é conhecida entre os teólogos como um tratado sobre a felicidade. Todos os intérpretes da bíblia concordam que essa é a carta mais “feliz” que o apostolo Paulo escreveu. Aparentemente, ele estava radiante de alegria ao escrevê-la.

Mas você sabe em quais condições Paulo se encontrava quando a escreveu? Paulo estava preso em Roma, nos cárceres mais sombrios da história. As prisões romanas eram feitas no subsolo, onde passava o esgoto da cidade, e é obvio que não era um esgoto encanado, como os de hoje. Era como um córrego vindo direto dos banheiros.

É bem provável também que nem tenha sido Paulo que escreveu a carta de próprio punho. Ele a deve ter ditado a um escriba, pois os prisioneiros de Roma ficavam acorrentados pelos pés e mãos, sentados ao chão, naquele mesmo chão por onde passava o córrego. Veja o que ele escreve um pouco antes:

Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo (Filipenses 3:7-8 – nova versão internacional).

A palavra que a versão NVI traduziu como esterco, na verdade significa fezes humanas. E vou conjecturar agora. Eu imagino Paulo ditando sua carta ao escriba, relembrando um pouco da sua vida na juventude. Paulo era um dos homens mais invejáveis da sua época, douto, três nacionalidades, fluente em várias línguas, discípulo de Gamaliéu, que era tipo uma USP da época.

Ele tinha tudo do bom e do melhor. E alguns anos após o seu encontro com o Cristo, ele se vê amarrado, naquela situação que descrevi acima. Nesse momento acredito que ele deve ter olhado para baixo e visto aquele córrego passando entre suas pernas, e, depois de uma bela gargalhada, ele deve ter dito ao seu escriba. “O que para mim era lucro antigamente meu amigo, agora é menos valioso que esses dejetos rolando por aqui” e os dois juntos caíram na gargalhada.

Pois esse é o sentimento de um verdadeiro cristão ao deparar-se com a diversidade: a alegria. Pois essa pessoa entende a proposta do Cristo no sermão da montanha, quando ele diz que felizes são os que choram, felizes os pobres, os humilhados, os maltratados por causa do evangelho, pois a felicidade dele não está nas circunstâncias e sim na salvação que recebeu graciosamente do Cristo.

O verdadeiro cristão não espera de Deus um trinfo financeiro. Aliás, ele considera todas essas coisas materiais como fezes, algo totalmente irrelevante. Pois ele sabe que logo o Senhor e Salvador de sua vida virá buscá-lo, e eles passarão a eternidade juntos, desfrutando daquilo que “nem olhos viram e nem ouvidos ouviram”.

 Imagem: Balendu

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