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Bestialidade econômica

PROMESSA DE CRESCIMENTO E AUTORITARISMO

COLUNISTA CONVIDADA

COLUNISTA CONVIDADAEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

01/12/2019 08h01Atualizado há 2 semanas
Por: Agassiz Almeida Filho

POR ROSÂNGELA PALHANO RAMALHO

Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (www.progeb.blogspot.com.br). Contato: [email protected]

CARO LEITOR, a conjuntura econômica mundial continua desacelerando. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirmou que as incertezas políticas e o fraco fluxo de comércio e investimentos domina o cenário econômico. A instituição estima uma desaceleração no crescimento do comércio mundial de 1,2% este ano. O PIB global cairá de 3,5%, registro de 2018, para 2,9% este ano. Previsões de arrefecimento também foram feitos para os Estados Unidos, Japão, Zona do Euro e China.

A economia interna apresenta sinais dúbios. O volume de vendas do varejo restrito cresceu 1,6% no terceiro trimestre, segundo o IBGE. O Monitor da FGV indica crescimento do PIB no trimestre, pois foi registrado um crescimento de 0,3% na passagem de agosto para setembro. No mercado de trabalho, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) detectou a abertura de 70,9 mil empregos em outubro. Mas a qualidade do emprego é o que chama a atenção. Houve criação líquida de 6.087 empregos com contrato intermitente e abertura de outras 2.569 vagas pelo sistema de jornada parcial. Estas duas modalidades foram criadas pela reforma trabalhista. O secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, comemorou: “...este vai ser o melhor Natal dos últimos anos na economia brasileira.”

O melhor Natal acontecerá, segundo a consultoria IDados (com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), com 26,6% do total de trabalhadores classificados como chefes de família ganhando um salário mínimo ou menos. O aumento do emprego informal é o responsável pelo aumento desta fatia que no segundo trimestre de 2015 era de 23,8%.

Mas os fatos não bastam e o desmonte da proteção trabalhista continua. Para justificar o “Contrato Verde e Amarelo”, que visa estimular o emprego dos jovens, o secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, Rogério Marinho, destacou o “bom senso” do governo, na revogação de trechos da CLT sobre fiscalizações trabalhistas. Além disso, falou a empresários, na Federação das Indústrias de Minas Gerais, que há muito “ruído” em relação à taxação dos desempregados. Aplaudido, defendeu ampliação da possibilidade de trabalho aos domingos, dizendo que o “domingo é um dia de trabalho como qualquer outro” e que o trabalhador não perderá seu dia de descanso remunerado, que não precisa ser no domingo. O secretário, otimista, prevê que a taxa de desemprego no Brasil se aproxime de um dígito até 2022. Ao que parece, o secretário especial de Previdência tem memória curta. No governo Dilma, as desonerações não provocaram o aumento automático do emprego, como a equipe econômica previa.

Guedes e sua equipe não reconhecem o fracasso das políticas recentes e o retumbante fracasso das políticas liberais no mundo. Seu grupo se esforça em explicar que, à medida que o governo se retira da economia, o setor privado passa a ocupar os espaços que sobraram. Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica, esteve presente na imprensa durante toda a semana para defender a política econômica e, em especial, o regramento fiscal. Ele chegou a afirmar que: “Pouca gente percebe, mas estamos fazendo um ajuste fiscal expansionista.” Em sua crença registrada como teoria econômica, já está determinado o fim do ciclo recessivo. “Existem vários textos acadêmicos que dizem que, quando o governo faz um ajuste fiscal rigoroso, principalmente reduzindo gastos, isso estimula o PIB”, afirmou.

Na semana passada, ficou demonstrado nesta coluna quem irá pagar o pato pela política econômica do governo. Não devemos tratar com surpresas as reformas aprovadas e propostas por Paulo Guedes, porque o ministro nunca escondeu sua pauta. O Posto Ipiranga do governo Bolsonaro agrada a elite econômica brasileira, que comemora o desmonte do Estado. E a bestialidade autoritária com a qual o governo flerta diariamente é tolerada pela promessa de entrega da pauta econômica. Até quando?

Imagem: Arquivo

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