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A VISÃO DO ABISMO

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COLUNISTA CONVIDADOEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

06/12/2019 21h24Atualizado há 8 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

POR NELSON ROSAS RIBEIRO 

Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (www.progeb.blogspot.com). Contato: [email protected]

CADA NOVO DADO divulgado representa um golpe nas esperanças de reversão da desaceleração da economia mundial. Dessa vez, foi a publicação dos dados da CPB World Trade Monitor, da Holanda. Eles mostram que o comércio mundial, em setembro, contraiu-se 1,3% em relação ao mês de agosto. No caso dos países emergentes asiáticos, excetuando-se a China, a contração foi de 3,3%. 

Em sentido contrário, o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA mostrou um crescimento de 2,1%, maior que o esperado, no terceiro trimestre. A previsão anterior era de 1,9%. No entanto, caíram os lucros e os investimentos das empresas. Guy Miller, estrategista-chefe global do grupo segurador suíço Zurich, porém, prevê uma recessão moderada para a economia americana em 2020 e uma diminuição do crescimento global, o que deve obrigar o Federal Reserve (Fed), banco central americano, a ações mais fortes e novo corte de juros, o que já vem ocorrendo em 55% dos BCs do mundo. Isso mostra que o ambiente internacional continua adverso, o que traz consequências negativas ao panorama interno. 

Com efeito, durante a semana aumentaram muito as tensões internas. O dólar disparou e a cotação atingiu a máxima histórica de R$4,27. Os analistas apontam como causas os dados negativos da balança de pagamentos, a queda das commodities, o fracasso do leilão dos campos de petróleo, a saída sazonal de divisas, a queda dos juros, a especulação e as declarações desastrosas do sinistro da economia, Paulo Guedes.  

O pânico levou o BC a fazer intervenção no mercado vendendo dólares e confirmando o que chamamos de “flutuação suja” do câmbio. O BC declarou que ainda está disposto a continuar a intervir, contrariando os preceitos liberais do governo, com o pretexto de corrigir “disfuncionalidades” do mercado. Temos agora um “censor de mercados” que vai classificar as “disfuncionalidades” e torrar as reservas do país para “corrigi-las”.  

Com essa instabilidade, os especuladores estrangeiros bateram em retirada. Só na segunda-feira (25), retiraram da bolsa R$2,07 bilhões; na terça-feira, US$1,8 bilhão, e, no que vai de ano, o total já atinge R$38,12 bilhões. 

Mas o super-sinistro da economia, Paulo Guedes, não está satisfeito. Acompanhando o governo na preocupação com os protestos na América Latina e saudoso dos seus bons tempos de governo Pinochet, no Chile, armou-se com o AI-5 para ameaçar a população. Ou “democracia responsável” ou cacete na cabeça com o AI-5. Claro que o disparate provocou reações generalizadas e possivelmente satisfação silenciosa do general Heleno, ansioso por meter as garras na carne do povo.  

Outro acontecimento importante foi a nova ofensiva do BC contra os juros elevados dos financiamentos, começando com os do cartão de crédito, que chegam a atingir 360% ao ano. Mais uma vez, a crença liberal levou um golpe, sob o protesto dos banqueiros, claro. Aliás, a Febraban vem enfrentando outra batalha com os bancários. Eles querem fechar um acordo para manter a jornada de trabalho de 6 horas para todos e a proibição de trabalho aos sábados, contrariando a legislação aprovada. Os bancários descobriram que foram traídos pela Febraban, que negociou secretamente com o governo as mudanças na legislação. Vamos ver quem tem mais força. 

Por parte do governo, continua a ofensiva autoritária. Além da proposta administrativa que está tramitando e que retira direitos dos funcionários e das propostas do Sérgio Moro com o excludente de ilicitude, o Planalto promete agora uma ampliação das operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para o campo, legalizando o uso das forças armadas na expulsão de invasores de terra. Claro que não é para aplicá-la contra garimpeiros, grileiros e madeireiros ilegais.

Com estas ações, o governo ganha, cada vez mais, o apoio das classes empresariais. Os aplausos vêm da Fiesp, da Firjan, da Fecomercio-SP, da CNI, da Abit. Paulo Skaf, presidente da Fiesp, afirma: “o que eu sinto no meio empresarial é um apoio ao governo Bolsonaro”. A reacionária burguesia brasileira mostra sua verdadeira cara. É tempo de guerra. Acabou a conciliação entre as classes.

ilustração: L. A. Monteagudo Uchoa

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