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O sofrimento que não comove

O RACISMO NOSSO DE CADA DIA

ENSINANDO A TRANSGREDIR

ENSINANDO A TRANSGREDIRInspirada na obra de Bell Hooks, a coluna aborda diversos temas do cenário político contemporâneo com olhares interseccionais, especialmente aqueles que dizem respeito ao gênero, à sexualidade e à raça. José Clayton Murilo C. Gomes pesquisa nas áreas de raça e processos de racialização, gênero e sexualidade.

02/01/2020 13h02Atualizado há 5 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

 

JOSÉ CLAYTON MURILO CAVALCANTI GOMES

No último dia 03 de dezembro, o Porta dos Fundos, grupo que produz vídeos com conteúdo humorístico e satírico para plataformas digitais, lançou seu especial de Natal na Netflix. Produzida anualmente, em 2019 a tradicional sátira fez referência à primeira tentação de Cristo. A estória se passa no aniversário de 30 anos de Jesus, momento em que ele descobre ser filho de Deus – fruto de um suposto adultério. Sua família, por sua vez, depara-se com Jesus chegando a sua casa com outro homem e revelando sua “homossexualidade”.

O especial de Natal, como era de se esperar, gerou muitas reações, sendo as mais “calorosas” aquelas vindas de setores evangélicos e católicos. As estratégias usadas para exteriorizar a indignação de uma Maria adúltera, um José traído, um Deus que pensa em sexo e um Jesus homossexual foram diversas, indo, desde um abaixo-assinado solicitando a retirada do filme da Netflix, até diversas ações judiciais pedindo censura. Ao se depararem com a possibilidade de censura, por sua vez, diversos setores sociais mais progressistas reagiram em favor da liberdade de expressão e do direito de criação artística.

A tentativa de censura tem, por óbvio, o objetivo principal de disputar a conduta de um Cristo imaculado e livre de uma sexualidade desviante. Digo isto porque no especial de Natal de 2018 o mesmo grupo retratou Jesus como um homem heterossexual, fanfarrão e com condutas questionáveis, mas não houve nenhum empreendimento ou movimento coordenado para censurar a imagem desse Jesus heterossexual. Tentar censurar a imagem de Jesus atrelada à homossexualidade tem a ver, claro, com o que Gayle Rubin chamou de “conflitos de interesse e manobras políticas”, sendo o sexo, portanto, sempre político. É nítido, então, que as questões que exsurgem com um “Jesus gay” não se relacionam com uma expressão de sexualidade pelo Cristo, mas com a exteriorização de uma sexualidade estranha ao pregado pelas igrejas como “normal” e com o rompimento de uma heterossexualidade compulsória.

O fato é que, embora as questões atinentes a gênero e sexualidade possam ser alvos de intensas discussões, outros temas merecem destaque no presente artigo. Os embates não se limitaram ao campo das ideias e seus desdobramentos merecem atenção. Na madrugada da terça-feira, dia 24 de dezembro, o local em que a equipe de humor grava seus vídeos foi atacado por cerca de quatro pessoas, que lançaram coquetéis molotov contra o prédio, causando um princípio de incêndio. Dias depois, um suposto grupo cristão integralista denominado “Comando de Insurgência Popular Nacionalista” reivindicou o ataque, afirmando ser a “espada de Deus” e que o “Brasil é cristão e jamais deixará de ser”.

A notícia não somente intensificou os debates, como ampliou a gama daqueles que defendem a produção do grupo satírico, visto que o extremismo de um ataque como esse jamais poderia ser defendido, fazendo do grupo um “Boko Haram” à brasileira. O ataque ganhou grandes proporções, rendendo notas de repúdio, indignação coletiva e diversas matérias jornalísticas. O ataque revelou, sem dúvidas, uma aglutinação de forças contra uma ação criminosa baseado em questões religiosas.

Acontece que a incursão desses delinquentes ao Porta dos Fundos não foi um ataque isolado que tem a religião como força motriz. O mesmo modus operandi vem sendo aplicado, ao longo dos anos, aos terreiros e locais de culto de religiões de matriz africana, sem, contudo, gerar o mesmo estardalhaço. São muitos os relatos de terreiros sendo apedrejados ou incendiados. E tais atos se baseiam na necessidade de destruição do “mal” presente nos terreiros.

A repressão a esse “mal maior”, presente nos terreiros e nas expressões culturais de origem africana, é suficiente para formalizar coalizões necessárias ao extermínio dessa população e de suas expressões, como é o caso do Bonde de Jesus, grupo de traficantes evangélicos que, com uma sacerdotisa octogenária de um terreiro do Rio de Janeiro sob a mira de uma arma, espatifaram os objetos considerados sagrados pelo candomblé. Os ataques são alimentados pela visão racista de que as entidades das religiões afro-brasileiras são demônios ou falsos deuses, disseminada pelo mainstream evangélico, como Edir Macedo e outros líderes cristãos intolerantes.

É uma visão racista porque, ao exteriorizarem um “mal” e atribui-lo seletivamente às expressões religiosas advindas de países africanos – não coincidentemente, as pessoas destes países foram escravizadas sob o argumento de inferioridade baseada na raça –, esses setores sociais pretendem acabar com matrizes religiosas através de uma fetichização do mal. Mais que isso, evangélicos e católicos que se propõem a estas práticas buscam um embranquecimento das tradições africanas, fazendo delas algo palatável aos seus próprios valores.

A afirmação pode soar absurda, mas basta observar o modo como diversas pessoas são intolerantes religiosas, ao tempo em que pulam as setes ondas de Iemanjá, simpatizam com as “baianas” e falam “chuta que é macumba”. Os ataques aos terreiros, portanto, compõem parte do âmago das relações raciais que nos cruzam e se transformam desde o colonialismo. Desta maneira, embora pareça estranho a alguns a associação da raça com o ataque sofrido pelo Porta dos Fundos, é fundamental enxergar os seus desdobramentos. É importante notar como diversos ataques aos terreiros, ao longo dos anos, não foram suficientes para aglutinar as forças que se formaram para defender tão vividamente o Porta dos Fundos. No fim, o trágico episódio nos ensina muito sobre as relações sociais. Porém, a mais urgente das lições é a de que o sofrimento negro não comove.

Foto: Lianne Milton/The Washington Post

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