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Os bastidores da Lava Jato

RESENHA DO LIVRO "NADA MENOS QUE TUDO", DE RODRIGO JANOT

COLUNISTA CONVIDADO

COLUNISTA CONVIDADOEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

08/07/2020 16h05Atualizado há 1 mês
Por: Agassiz Almeida Filho

POR SEBASTIÃO COSTA

Médico

O tsunami político-judiciário que abalou as estruturas do país é contado no livro do ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot, Nada Menos que Tudo. Janot, que viveu e conviveu durante quatro anos no centro do furacão, relata em suas memórias os labirintos obscuros da Operação Lava Jato. Expõe com isenção os malabarismos do sistema judiciário e os humores seletivos da imprensa hegemônica. Penetra nas profundezas de um pântano onde fervilham os micróbios da corrupção, que infectaram o universo político, num conluio perverso com fatia importante do empresariado nacional, ao mesmo tempo em que escancara as malandragens da Operação Lava Jato e joga um feixe de luz nas tendenciosidades da imprensa nacional.

 

CAPÍTULO 15: O OBJETO DE DESEJO CHAMADO LULA

 

No capítulo 15, Janot fala de uma reunião com quatro procuradores de Curitiba. “(...) Deltan Dallagnol pediu uma reunião comigo em Brasília (…). Quando entraram na minha sala, eu disse pra mim mesmo - Lá vem problema. Toda vez que vinham em grupo, era sinal de algo grave.” Pelo programa previamente estabelecido, a PGR iria apresentar as denúncias dentro do seguinte cronograma: primeiro, a do PP, depois, do PMDB da Câmara, a do PT e, por fim, a do PMDB do Senado. Seguiu-se esse diálogo.

 

 Dallagnol: - Precisamos que você inverta a ordem das denúncias e coloque a do PT primeiro, Janot.

 

Janot: - Não, eu não vou inverter. Não tem razão para eu mudar essa ordem.

 

“Paludo disse, então - ressalta Janot -, que eu teria que denunciar o PT e Lula porque, senão assim, a denúncia apresentada por eles contra o ex-presidente por corrupção passiva e lavagem de dinheiro ficaria descoberta. (...) Eu teria que acusar Lula para dar lastro à denúncia por eles apresentada ao juiz Sérgio Moro.”

 

Dallagnol: - Se você não fizer a denúncia a gente perde (acusação) a lavagem.

 

Janot: - Eu não vou fazer isso. Quando houve o compartilhamento da prova, o ministro Teori excluiu expressamente a possibilidade de vocês investigarem e denunciarem o Lula por crime de organização criminosa. E vocês fizeram isso. Vocês desobedeceram o ministro. Eu não tenho o que fazer com isso.

 

Paludo, insistindo: - Mas se não for assim, nós vamos perder a denúncia, Janot.

 

Janot: - O problema é de vocês. Não faço isso de forma nenhuma.

 

"Sem clima - disse Janot -, a reunião foi encerrada." À falta do devido amparo jurídico, o jeito foi apelar para o guarda-chuva da velha mídia tupiniquim, guerreira de outros golpes. Janot fala da coletiva convocada por Dallagnol: “No Power Point, Lula era o grande general, o comandante máximo da organização criminosa.” As “convicções” foram soterradas no vazio da falta de provas.

 

FOSSE A LAVA JATO UM RESTAURANTE, ISSO AÍ SERIA A ENTRADA, O PRATO PRINCIPAL VIRIA DEPOIS

 

O autor, nos quatro anos à frente das investigações daquele tsunami político-judiciário, passeou numa incrível montanha russa, repleta de ondulações emotivas. No início das primeiras acusações, viveu um céu de anjos, caminhou pelo purgatório, antes de ser jogado ao inferno de Dante.

 

 

As comemorações, acompanhadas pelos elogios festivos da mídia hegemônica, regadas a muito vinho, ocorreram quando o procurador denunciou empresários, lobistas, políticos do PP, PMDB e ligados ao governo petista. O clímax, com todos os anjos do céu tocando harpas para o procurador, ocorreu com sua denúncia ao Supremo, que produziu a prisão do líder petista no Senado, Delcídio do Amaral. Zavascki, relator da Lava Jato no Supremo, para Janot:

 

Zavascki: - O pedido de prisão está pronto?

 

Janot: - Sim, está pronto!

 

Zavascki: - Pode entrar com o pedido, então. É caso típico de prisão!

 

Percebam a determinação do ministro!! O petista havia sido gravado pelo grampeador Sérgio Machado - ex-líder de FHC no Senado e presidente da Transpetro no governo petista -, articulando a fuga de uma testemunha com artilharia pesada para lhe comprometer. Zavascki aceitou a denúncia da PGR e o petista foi curtir férias na colônia penal de Curitiba.

 

O prestígio do procurador, dos seus colegas e de toda a Lava Jato na imprensa tupiniquim, nas redes sociais, nas conversas dos brasileiros, atingiu os mais elevados decibéis na escala Richter do reconhecimento. Nesse embalo, foi convidado para ser vice-presidente, ministro da justiça e duas vezes lhe prometeram vaga no STF. No livro:"Eu só não diria que éramos mais populares que Jesus Cristo…O fato é que nós, procuradores, juízes e policiais, experimentávamos uma popularidade nunca vista antes no meio judiciário." 

 

COITADO DE JANOT

 

Não demorou muito tempo e todos os demônios do inferno começaram a tocar fogo na euforia da rapaziada da PGR, quando o procurador "cometeu a grande tolice" de denunciar Jucá, Renan Calheiros e José Sarney, receptadores de umas "propinazinhas", rodeando os 100 milhões de reais da Transpetro, subsidiária da Petrobras. De quebra, o crime de obstrução da Lava jato, o mesmo do petista Delcídio.

 

Janot: - Vou pedir a prisão deles. Isso que temos aí (nas gravações) é flagrante.

 

Zavascki: - Tudo bem, faça seus pedidos que eu vou analisar.

 

Percebam a falta de determinação do ministro. Ainda no livro: “O pedido foi sumariamente rejeitado pelo Supremo. Não só isso, parte da imprensa, que aplaudia cada passo da Lava Jato e até cobrava medidas cada vez mais duras, redirecionou as baterias contra o Ministério Público Federal, especialmente contra mim e minha equipe em Brasília.”

Na gravação de sete horas de uma conversa entre o delator Sérgio Machado e os senadores Jucá, Renan Calheiros e José Sarney, eles “tramavam empurrar de vez a presidente Dilma Roussef para o calabouço do impeachment, um atalho para "estancar a sangria da Lava Jato". Dilma seria substituída pelo vice, Michel Temer. Com a troca, a imprensa, que não gostava da presidente, baixaria as armas (…). Derrubariam uma presidente, mudariam algumas leis e manietariam a Procuradoria-Geral com o singelo propósito de salvar a própria pele.” Janot relata um momento mais explícito da gravação:

Jucá: - Tem que resolver essa porra! Tem que mudar o governo para estancar essa sangria.

 

Sérgio Machado: - E um acordo, botar o Michel Temer num grande acordo nacional.

 

Jucá: - Com o Supremo, com tudo.  

 

DITO E FEITO

 

No livro, Janot enumera doze crimes de Eduardo Cunha e solicita seu afastamento da presidência da Câmara. Na época, “Cunha vinha recebendo crescente apoio do empresariado, dos evangélicos, dos grupos de direita que lideravam grandes manifestações contra a corrupção (…). Mas, em determinado momento que o peemedebista percebeu que o cerco da PGR estava se fechando sobre ele, mandou um recado pra Dilma Roussef. A presidente deveria ‘segurar’ o procurador-geral, caso contrário ele tocaria o pedido de impeachment dela. "Dilma respondeu - Ele que faça o que ele quiser!"

 

DEU NO QUE DEU

 

Que nome se daria a essa violência contra a racionalidade, o senso de justiça, com um corrupto carregando doze crimes nas costas, tocando o processo de impeachment de uma presidente sem crime de responsabilidade, conforme perícia técnica do Senado? O que dizer do relator Zavascki, que ordenou, com absoluta determinação, a imediata prisão do líder petista no Senado e manteve, durante cinco meses, dormindo na sua gaveta, a solicitação da PGR que retiraria das mãos de Eduardo Cunha o poder de comandar a derrubada da presidente da República?

 

Após oito meses da solicitação de Janot e cerca de trinta dias após o empurrão da Câmara em busca do impeachment, o relator, ressalta o ex-procurador geral da República, “concedeu uma decisão liminar pelo afastamento de Cunha, que depois foi referendada pelos demais dez ministros do STF.” E Cunha foi transferido para o calabouço da capital paranaense. Quer dizer, extraíram o sumo e atiraram o bagaço aos abutres de Curitiba. O procurador não só elogia essa obrigação do Supremo, como joga flores no ministro: "Zavascki demorou, mas o fez porque era um grande estrategista.”

 

 

Nota-se, nas diversas referências de Janot, uma certa admiração pelo ministro. Mas, como acreditar na imparcialidade de um ministro cuja atuação "salvou a vida" de três políticos que cometeram o mesmo crime do senador petista, com o bolso cheio de propinas e com a missão escancarada de golpear uma presidente para "estancar a sangria"?

 

Em maio de 2016, bate à porta da PGR a “Delação do Fim do Mundo”, vinculada à maior empreiteira do país, a famosa Odebrecht, com 83 políticos dos maiores partidos envolvidos e que vai jogar muita lenha na fornalha, queimando, mais ainda, a imagem, a essas alturas, já chamuscada, da PGR.

 

Chamuscada e queimada nas labaredas do querosene midiático, que, lá no comecinho desse roteiro de cinema americano, colocou a PGR no altar de todos os santos. Mas agora, com o envolvimento de políticos comprometidos com o “sistema”, tocando as reformas trabalhista e previdenciária, as chamas ultrapassaram os limites da Instituição e foram atingir até a reputação da filha do procurador-geral, com direito a pedido de prisão do próprio Rodrigo Janot pelo deputado Carlos Marun (PMDB-RS), que veio a ser, posteriormente, Ministro de Temer.

 

Na CPI da JBS, “criada apenas para torpedear o Ministério Público”, frisa Janot, a intenção era também neutralizar as violentas denúncias consubstanciadas nas delações dos executivos da empreiteira. Estavam lá os pesos-pesados, José Serra, Aécio Neves e o próprio presidente da República, sem um único voto, sem popularidade e com denúncias que envolviam seu grupo político, com raízes fincadas desde o governo Itamar Franco. O sub-procurador Pelella, espantado, entra na sala de Janot.

 

Pelella: - Ouça isso aqui, batemos no teto, batemos no teto!

 

Era uma gravação entre Joesley Batista e o presidente Temer, os dois combinando quem seria o homem de confiança no governo para o repasse de propinas. Isso, em plena efervescência da Lava Jato.

 

Janot: - Bateu no teto, não, furou o teto!

No dia 26 de junho, a PGR apresentou a denúncia contra o presidente da República, acatada três dias depois pelo Supremo.

Mesmo sendo um presidente impopular, com 1,3 bilhões de reais de propinas na folha corrida, e a mesma Câmara que mandou Dilma para casa manteve um dos maiores corruptos naquele contexto político, firme e forte na condução dos destinos do país. “O caso era de (pura) corrupção - escreve Janot -, mas, ao contrário do que vinha ocorrendo, dessa vez as multidões não foram às ruas e nem bateram panelas." Ainda no livro:

 

“No caso de Serra, o ex-presidente da Odebrecht, Pedro Novis, disse em depoimento que a empreiteira, a pedido do Senador, pagara 52,4 milhões de reais de forma ilícita para campanhas políticas dele entre 2002 e 2012.” Ponha-se ainda no currículo do então ministro das Relações Exteriores os 23 milhões de dólares identificados pelo MP em contas secretas na Suíça. Com relação a Aécio, acusado de receber propinas de 63 milhões de reais, o procurador refere uma conversa com Joesley Batista em que o presidente nacional do PSDB lhe pedia 2 milhões de reais.

 

 

Na gravação, observa Janot, "era como se um estudante pedisse ao pai um dinheiro extra para levar a namorada ao cinema no fim de semana." Resumo da ópera. Sarney aposentado, Renan segue senador, Jucá continua firme na política, Temer concluiu seu mandato, Serra é senador da República e Aécio deputado federal. E Dilma, que nada tinha a ver com desvio de dinheiro público, perdeu o mandato outorgado pelo povo. Lula, com todas malandragens explícitas de Dallagnol, sem Moro apresentar uma única prova, foi preso.

 

VIOLENTA AGRESSÃO AOS PRECEITOS DEMOCRÁTICOS!

  

Unindo todos os pontos, juntando linhas e entrelinhas, numa leitura interpretativa e imparcial do livro de Janot, vamos enxergar a prisão de Lula e o golpe que incinerou 54 milhões de votos, atendendo a dois senhores: ao mundo do deus mercado, com as reformas do governo Temer, e ao universo da corrupção política, com o "estancar da sangria". Tudo ocorreu conforme o projeto dos três senadores peemedebistas, com a participação efetiva do sistema judiciário e o auxílio luxuoso da imprensa hegemônica!!!

 

Fotos: Getty Images, Heuler Andrey/AFB e Lula Marques/ Folhapress

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