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A extrema-direita e a pandemia

INSENSIBILIDADE, TRUCULÊNCIA E PRAGMATISMO CRUEL

COLUNISTA CONVIDADO

COLUNISTA CONVIDADOEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

16/07/2020 15h43Atualizado há 4 semanas
Por: Agassiz Almeida Filho

POR SEBASTIÃO COSTA

Médico

São duas as características que a extrema direita mantém em seu currículo: a insensibilidade e a truculência. Insensibilidade, diga-se, humana e social. Humana no sentido de produzir assassinatos em massa; e social, vinculada à ausência de qualquer preocupação com a qualidade de vida das populações periféricas. A truculência está conectada com as metodologias pouco sutis para atingir e/ou manter os seus projetos.

Na história, os dois personagens mais reluzentes desse time atendem pelos nomes de Mussolini, do fascismo italiano, e Hitler, do nacional-socialismo. Durante a primeira metade do século passado, insensibilidade e truculência, de mãos dadas, trucidaram democracias e produziram genocídios. 

Mas, de olho na pura verdade, há de se convir que o extremismo de direita se modernizou. Adaptou-se ao contexto da democracia. No Brasil, por exemplo, montou na vitrine das crises econômicas e no antipetismo midiático para vencer eleições. Esqueceu-se, no entanto, de trocar a roupa da insensibilidade e da truculência.

Reconheça-se também o seu pragmatismo. Surfando nas ondas da insensibilidade, os extremistas atropelam a razão, pisoteiam o normatismo vigente para enxergar apenas seus objetivos políticos.

Essa realidade foi explicitamente patenteada na condução da atual pandemia do coronavírus pelos presidentes do Brasil e dos Estados Unidos. A máxima incontestável dentro de qualquer epidemia é “quanto mais contatos, mais contágios”. E mais infecção, e mais doença, e mais mortes. 

Matéria do respeitado jornal americano, The Washington Post, expõe a frieza de Trump, quando alertado pelos serviços de inteligência, nos meses de janeiro e fevereiro, acerca da gravidade da epidemia que já estava entrando no país. O presidente preferiu compará-la a uma gripe comum.

Pouco tempo depois, mesmo diante das evidências de uma invasão violenta e irreversível da Covid-19, o republicano, na contramão das recomendações de todas as autoridades sanitárias mundiais, desaconselhou o isolamento social.

Na carona do arrependimento tardio do presidente, o gigante, tão competente no seu poder econômico, imbatível no seu potencial bélico, em menos de dois meses exibia uma escalada de infecções, batendo todos os recordes nos índices de incidência e na taxa de letalidade. Recorde, registre-se, ultrapassando a barreira de dois milhões e quinhentos mil infectados, e quase empatando com a soma dos casos e mortes ocorridas em todos os países ao redor do mundo.

Ressalte-se, ainda, que o coronavírus não vive só de produzir doenças e cadáveres. No seu rastro, seguiu uma dispneia econômica, sem se enxergar, no curto prazo, oxigênio para sequer amenizar o declínio aterrorizante do PIB americano de 2020, ano crucial de reeleição para Trump.

O jeito foi apelar para o pragmatismo cruel, com granadas disparadas em direção à China, morteiros atingindo a Organização Mundial de Saúde. Cometeu uma heresia: “A OMS é co-responsável pela epidemia”. E um absurdo: "O vírus foi produzido em laboratório chinês". Alguns oligofrênicos acreditam.

No Brasil, reconheça-se, a insensibilidade é mais evidente; a truculência, mais persistente. A curva epidêmica em plena evolução, hospitais e UTIs esgotando sua capacidade de atendimento, a multiplicação diária de cadáveres. E o presidente da República atacando o distanciamento social.

Convenhamos que 2022, ano de tentativa de reeleição para o brasileiro, está bem mais distante do que a eleição que será disputada pelo americano. Mas as previsões econômicassão para lá de sombrias. Na área do euro, queda de 7,5% do PIB; nos EUA, declínio de 5%. E a economia brasileira enterrada em 6% de retração.

A recuperação da economia mundial, conforme projeções do grupo dos países ricos (OCDE), não deve ocorrer no período imediato do pós-coronavírus. E o pragmatismo perverso segue estimulando, no discurso e nos gestos, os contatos, os contágios, as infecções, as mortes. O gigante norte-americano bate recordes mundiais na modalidade produção de cadáveres. Abaixo da linha do equador, o gigante sul-americano exibe medalha de ouro na mesma categoria.

Ilustração: KAL/The Economist

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