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COVID-19

Os genomas do corona brasileiro

O LONGO PERCURSO DA VACINA BRASILEIRA

COLUNISTA CONVIDADO

COLUNISTA CONVIDADOEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

02/08/2020 17h00Atualizado há 2 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

 

POR SEBASTIÃO COSTA

Médico

A chegada da família coronavírus foi anunciada ao distinto público em 1937, mas, só na metade da década de 1960, dois irmãos gêmeos, alfa e beta coronavírus, apresentaram suas credenciais patogênicas. Uma gripezinha, feito um resfriado comum, e só! Nem sequer despertou a devida atenção das autoridades sanitárias mundiais.

Após um período de quase 40 anos sem dar as caras, em 2002 a família apresentou, lá na China, o Sars COV-1. Em 2013, na Arábia Saudita, surgiu o mais agressivo de todos os irmãos, o MERS- CoV, com uma capacidade de enviar ao necrotério 3 em cada 10 infectados; taxa de letalidade bem acima dos padrões da atual pandemia. 

O Sars, com genoma quase 100% idêntico a vírus identificados em morcegos prevalentes em regiões da China, e o MERS, encontrado nas entranhas dos dromedários que convivem com a população da Península Arábica, não dispunham de grandes potenciais de transmissibilidade e ficaram restritos às suas regiões.

Em dezembro de 2019, surge o SARS-COV-2, também relacionado a morcegos, assombrando o mundo com seu poder de transmissibilidade bem acima do potencial médio da família e taxa de letalidade apresentando intensa variabilidade, entre 2% e 6% do infectados.

A invasão da Europa ocorreu nos primeiros dias de fevereiro deste ano e, antes de chegar ao Brasil, especialmente pela rota São Paulo-Ceará, o novo coronavírus fez escala na Itália e nos EUA. Essa constatação está registrada em artigo assinado por 70 pesquisadores de Universidades do Brasil e da Inglaterra.

O primeiro caso notificado no Brasil, na cidade de São Paulo, em 26 de fevereiro de 2020, referente a um paciente vindo da Itália, apresentou genoma bem próximo ao do vírus identificado na Alemanha. Três dias depois, a segunda notificação apresentava características genéticas idênticas ao vírus que infectou os ingleses. Outra curiosidade, nenhum deles apresentava genoma identificado com a cepa Huan-HU-1 do corona chinês.

Pelo menos dez dias antes dos dois casos paulistas, três cepas do Sars-CoV-2 já estavam circulando por grandes centros urbanos brasileiros. A realidade é que o SARS-CoV-2 apresenta elevada capacidade de mutação, e estudos das alterações do código genético facilitaram a identificação dos rastros que o vírus deixou em nosso território.

A visita a um desses estudos joga um feixe de luz nessa intrincada relação de replicações sucessivas do Sars-CoV-2 e suas repercussões na pandemia brasileira. 

O maior estudo já realizado para sequenciamento dos genomas do Sars-CoV-2 que aportou no Brasil identificou mais de quatro centenas de genomas. 102 deles desembarcaram logo no início, e, nas suas sucessivas replicações, chegaram a um total de 427 genomas diferentes espalhados pelo território brasileiro. Antes desse estudo, a Fundação Oswaldo Cruz já havia desenvolvido o sequenciamento de outros 63 genomas.

Os cientistas da UNICAMP, UFRJ, USP, Universidade de Oxford e o Imperial College of London extraíram dos estudos a convicção de que 3, dos mais de 100 genomas que aqui chegaram, conseguiram se disseminar com mais competência e produziram com bem mais força o processo de contaminação, que já ultrapassa a barreira de 2 milhões de infectados. Eles acreditam ainda que, ao contrário do que se imaginava, essas 3 cepas, e não os genomas alemão e inglês que desembarcaram em São Paulo, foram os grandes responsáveis pela disseminação no resto do país.

Há a certeza, ainda, entre os pesquisadores, de que os efeitos do distanciamento social foram determinantes para a redução da diversidade genética do vírus, inibindo, consequentemente, a evolução da curva epidêmica. A quarentena interferiu naturalmente na capacidade de sua transmissibilidade, numa proporção de 3 para 1. Ou seja, sem o isolamento social o país estaria hoje num patamar epidêmico bem acima dos 3 milhões de infectados e, provavelmente, batendo todos os recordes do mundo. 

Sobre o desenvolvimento de uma vacina com perfil do corona brasileiro, o cientista Nuno Faria, da Universidade de Oxford, esclarece que a “diversidade genética está associada com a transmissão diretamente. Quanto maior o número de pessoas infectadas e quanto mais explosiva for a contaminação, maior será a diversidade genética do vírus. São processos intrinsecamente relacionados. Assim, ainda precisamos de mais pesquisas, isso pode influenciar na criação de uma vacina determinada para o Brasil”. 

Enquanto isso, o isolamento social segue como a vacina mais competente para intervir na cadeia de transmissibilidade e na evolução da curva epidêmica da Covid-19.

Imagem: Arquivo

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