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Capitalismo versus cristianismo

A FÉ DO CAPITAL

COLUNISTA CONVIDADO

COLUNISTA CONVIDADOEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

08/08/2020 07h37Atualizado há 2 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

POR SEBASTIÃO COSTA

Médico

O baiano Jorge Amado quis expor sua visão comunista na obra Tocaia Grande, onde ele cria uma comunidade em convivência harmoniosa e baseada na igualdade social. Uma sociedade sem hierarquização, onde os bens produzidos eram distribuídos e compartilhados igualmente entre todos. Uma sociedade cristã, absolutamente feliz.

Mas eis que os olhos capitalistas do coronel enxergaram, naquelas terras, muita fertilidade para desenvolver suas roças de cacau. E, em meio ao ataque fulminante dos jagunços, só restaram as terras férteis para expandir as suas riquezas. A brutalidade do capitalismo coronelista destruiu a pureza daquela sociedade, que vivia em plena harmonia com os ensinamentos cristãos. 

Leonardo Boff, quando se refere ao seu amigo Niemeyer, fala sobre o comunismo do gênio da arquitetura, "muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido no Ato dos Apóstolos, capítulos 2 e 4". Ali se vivia – continua Boff – "em comunhão fraterna, manifestada externamente na aceitação dos demais, na partilha dos bens e na distribuição dos serviços".

No alicerce dos primeiros cristãos, foi construída a Santa Madre Igreja, que, ao longo dos tempos, foi se deixando levar pela atração irresistível do capitalismo. Naqueles braços aconchegantes, papas, cardeais e bispos foram gradativamente se amoldando às regras, à convivência e ao modus vivendi das relações capitalistas 

Riquezas ostensivas, influência política evidente e um banco para garantir o poder econômico do Vaticano. Capitalismo pleno. A defesa dos pobres e oprimidos, essência dos ensinamentos de Cristo feito homem, perdeu-se pelos labirintos das práticas religiosas. Na fé em Deus, a certeza do passaporte ao reino dos céus. E a prática cristã da solidariedade, da igualdade entre os homens, soterrada pela falta de consciência daquela fé. 

Difícil a coexistência, no mesmo espaço, do capitalismo e do cristianismo dos primeiros tempos. São práticas antagônicas. Aquele, egocêntrico; este, solidário. Na visão de Jorge Amado, o cristianismo entranhado naquela sociedade foi brutalmente destruído pela violência capitalista do coronel. E a Igreja Católica Apostólica Romana, brotada na inspiração cristã da igualdade e da fraternidade, cooptada pelo egocentrismo insensível do sistema capitalista.

O pensador italiano, Antônio Gramsci, menciona que a educação, a imprensa e a religião como as pilastras que mantêm as estruturas perversas do capitalismo. Das Igrejas – católicas ou  evangélicas – saíram muitos fiéis entupidos de fé religiosa, vazios de sensibilidade cristã, absorvendo a mensagem do candidato "DEUS ACIMA DE TUDO" para deglutir o discurso fascista de estímulo à violência, de agressão às mulheres, de racismo, de repulsa aos pobres e às minorias.

Dados atuais, divulgados pela ONG Inglesa OXFAM, falam de um mundo com desigualdades sociais em expansão, num contexto já profundamente injusto. Um mundo cada vez menos cristão e mais capitalista.

Em tempo, faça-se justiça, no entanto, à Teologia da Libertação, consubstanciada no pensamento do dominicano peruano Gutierrez e no discurso sensível do Papa Francisco. Naquela força evangelizadora, o contraponto ao poder conservador e autoritário de Roma, fazendo brotar sangue cristão nas veias capitalistas da velha Igreja Católica Apostólica Romana.

Ilustração: Peter von Tresckow

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