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Todos no mesmo barco?

DESIGUALDADE E COVID-19

COLUNISTA CONVIDADO

COLUNISTA CONVIDADOEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

08/08/2020 08h14Atualizado há 2 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

POR LUCAS MILANEZ DE LIMA ALMEIDA

Professor do Departamento de Economia da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; [email protected]).

Caros leitores, em meio àquela que deve ser a pior crise econômica e social dos últimos 100 anos, foram lançados os relatórios da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e da organização Oxfam sobre as desigualdades agravadas pela pandemia de Covid-19 na América Latina e no Caribe.

Nos dados apresentados pela Oxfam, estima-se que 40 milhões de pessoas devem perder o emprego durante a pandemia e um total de 52 milhões devem cair para a linha da pobreza. O relatório também afirma que o PIB dos países das regiões deve ser 9,4% menor em 2020 do que foi em 2019. Pelos dados da Cepal, as estimativas são de que a pobreza atinja 37,3% da população da região ao fim de 2020, um total de 231 milhões de pessoas. Destas, 96 milhões terão dificuldades de obter o mínimo de alimentação diária necessária para sobreviver, pois ficarão abaixo da linha da pobreza.

O país mais atingido, até agora, foi o México. Lá registrou-se queda de 17,3% no PIB do 2º trimestre, em relação ao 1º trimestre de 2020. Para termos uma ideia do tamanho das perdas, comparemos com os números de alguns países “ricos” no mesmo período: EUA, -9,5%; Alemanha, -10,1%; Bélgica, -12,2%; Itália, -12,4%; França, -13,8%; e Portugal, -14,1%. A situação mexicana só não foi pior do que a da Espanha, que teve queda de 18,5%. No Brasil, ainda não temos o dado oficial, mas a estimativa é de que tenhamos uma queda em torno de 11% no PIB trimestral, segundo a FGV.

Ainda na comparação dos dados internacionais, o Instituto de Estudos Para o Desenvolvimento Industrial divulgou uma pesquisa que analisou a produção em 43 países. Comparando a atividade industrial entre janeiro e maio de 2020 com o mesmo período de 2019, alguns dados chamam a atenção. Primeiro, que seis países apresentaram crescimento na produção industrial (Noruega, Malta, Montenegro, Irlanda, Bélgica e Coreia do Sul). Argumenta-se que o saldo positivo deveu-se ao grau de especialização da indústria desses países. 

O Brasil ficou em 30º lugar, com queda de 10,7% na produção industrial. Países como China (-1,3%), Rússia (-2,7%), Turquia (-7,7%), EUA (-8%), Reino Unido (-11,1%), Alemanha (-14,7%) e África do Sul (-15%) também foram abrangidos pelo estudo. A expectativa é de que o Brasil caia ainda mais no ranque pela melhora da situação em países europeus (incluindo Portugal, Espanha, Itália e França), dado que eles têm combatido de forma mais efetiva a pandemia do que nós.

Diante desses dados, pensamos: a situação para todos, ricos e pobres, deve estar péssima durante essa pandemia, não é? Ledo engano... Retornando aos relatórios da Cepal e da Oxfam, vejamos o que dizem sobre à vulnerabilidade e à desigualdade na região.

A Cepal argumenta que se encontram em situação de vulnerabilidade ainda maior: “idosos (85 milhões), trabalhadores informais (54% do emprego regional), mulheres (a maioria em atividades informais, com aumento do trabalho não remunerado e maior exposição à violência doméstica), povos indígenas (60 milhões de pessoas e com comunidades que podem desaparecer), pessoas afrodescendentes (130 milhões de pessoas em 2015), pessoas com deficiência (70 milhões de pessoas) e migrantes”.

Por sua vez, a Oxfam analisou o que já ocorreu com a concentração de renda nos países da região desde março, quando a pandemia chegou de vez por aqui. Os dados ficaram famosos pela resposta do metroviário Altino Prazeres ao âncora do “Bom dia SP”, Rodrigo Bacardi, quando questionado sobre a greve dos trabalhadores do metrô durante a pandemia. As 72 pessoas mais ricas da região da AL e Caribe aumentaram sua fortuna em mais de 48 bilhões de dólares desde março de 2020. Só no Brasil, o patrimônio de apenas 42 pessoas aumentou em 34 bilhões de dólares (multiplicando esse valor pela taxa de câmbio, temos algo em torno de 170 bilhões de reais).

No começo da pandemia, alguns diziam que estávamos todos no mesmo barco. Agora, confirma-se o que os mais sensatos disseram. Estamos na mesma tempestade, não no mesmo barco. Por essência, quando dá, o capitalismo não distribui barcos iguais para todos.

Colaboraram os pesquisadores Edson da Paz, Ingrid Trindade, Matheus Quaresma, Monik H. Pinto e Guilherme de Paula.

Foto: C_Fernandes/Getty Images

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