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Raízes do racismo

A COR DO PRECONCEITO

COLUNISTA CONVIDADO

COLUNISTA CONVIDADOEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

17/08/2020 18h55
Por: Agassiz Almeida Filho

POR SEBASTIÃO COSTA

Médico

Um mundo sociologicamente dividido pela teoria “culturalista,”  consolidada no pós-segunda guerra pela supremacia americana, com o protestantismo individualista emitindo as linhas para a construção de uma sociedade rica, democrática.

Essa teoria, põe de um lado os países ricos, desenvolvidos, superiores e lá  embaixo da linha do Equador, nações pobres, subdesenvolvidas, inferiores.

Esta dicotomia, fale-se a pura verdade, já foi bem mais perversa.

Superiores eram os brancos que colonizavam e escravizavam os negros. A cor da pele era o único pré-requisito a definir os padrões de superioridade entre as nações 

 Teoria conhecida nas ciências sociais como “racista” e que predominou até a década de 1920.

Uma breve  visita ao século XIX e entendemos melhor essa perversidade:

Arrancados  do aconchego da família, da convivência social, de sua interação religiosa e jogados nos porões infectos dos navios.

Dos que sobreviviam à fome, ao açoite, à humilhação, eram atirados às roças dos senhores, ao chicote dos feitores.

Na fuga, em busca de liberdade, se deparavam com o mosquetão do capitão  do mato, com o tronco da senzala.

Quando abolidos, os últimos a serem abolidos, foram jogados nas sarjetas da rua. Seus donos, recompensados  com o dinheiro público

Aos pretos, a senzala, o tronco, o açoite; aos brancos italianos que aqui chegaram para compensar o vazio da mão-de-obra, casa, salário, escola.

Bilac, 'poetizando' seus sentimentos de uma era que ele viu, viveu  e sofreu: 

“Virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida, o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial”.

No ocaso daquele século, a abolição da escravatura, as ebulições econômico-sociais, produziram profundas transformações no  país.  

 O Brasil em  pleno processo de urbanização e os  ex-escravos, analfabetos, restritos à sua prática rural, sem condições de competir com os milhões de imigrantes brancos que invadiram o sul/sudeste. 

Junte-se aí, o estigma, o violento preconceito de uma sociedade de mentalidade profundamente escravocrata, e os ‘libertos'  forçados a se acomodarem como párias dentro da nova estruturação social do país, forjados a se amontoarem em guetos periféricos

.Para o sociólogo Jessé Souza, a 'ralé brasileira', uma classe  ‘eternamente' condenada a ser a "escória proletária, ao ócio dissimulado, a criminalidade fortuita ou permanente...”

E o que mudou da abolição do século XIX à democracia do século XXI?

Um olhar mais sensível no Brasil atual e vai-se enxergar muitos discursos, muitas leis e muitos atos, sem desatar o nó do racismo, entranhado nas escolas, nas instituições, nas ruas.

 E os descendentes daqueles que foram chicoteados no tronco, habitando morros e favelas, superlotando presídios, perfurados por balas do poder publico.

Enquanto isso, a insensibilidade social, o analfabetismo sociológico em conluio com a miopia histórica, querendo forjar  a ideia de que vivemos numa democracia racial.

Imagem: arquivo

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