Contraponto topo
COLUNA

A integridade dos meios

OS LIMITES DA AÇÃO POLÍTICA NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO

EMERSON BARROS DE AGUIAR

EMERSON BARROS DE AGUIARA coluna reflete a força da união e do pensamento libertário contra os grilhões da opressão, da ignorância e do obscurantismo de todas as épocas. Emerson Barros de Aguiar é pastor batista, escritor, articulista e editor do Portal Esquerda Virtual. Possui formação em teologia, filosofia, política, educação e direito em universidades do Brasil e da Espanha.

31/01/2021 02h30Atualizado há 6 meses
Por:

POR EMERSON BARROS DE AGUIAR

A novela “Os demônios”, publicada por Dostoiévski em 1872, já advertia para os perigos das ideologias totalitárias. A preocupação com o fanatismo ideológico dos movimentos revolucionários já assombrava o autor.

Dostoiévski observou discursos inflamados inspirando assassinatos e viu nestes acontecimentos o gérmen de algo terrível. O ódio cego e niilista que levava filhos a matar pais por causa de chavões revolucionários antecipava o cenário dos totalitarismos que dominariam a Europa na primeira metade do século XX. A obstinação política aliada ao niilismo dos seus militantes produzia o ativismo frio, impiedoso e violento, capaz de tudo para atingir os seus objetivos.

Se, para cumprir a sua missão histórica, é preciso apenas matar uma viúva rica, por que não? Se, para colaborar com os seus ideais de justiça, é necessário apenas atropelar todos os valores nos quais não se crê, qual o problema? Daí a transgredir as leis em geral ou a cometer genocídios é só uma questão de volume.

Vale aqui um apontamento, porém. O que passo a dizer não deve ser tomado como uma condenação da esquerda e, menos ainda, como um elogio à direita. A direita já é um equívoco em si mesma, pois é o egoísmo proposto como ideal político. Um provérbio espanhol diz: “la derecha jamás defrauda”, no sentido de que ela é sempre uma decepção. A esquerda é que pode frustrar expectativas e esperanças quando não se porta como tal.

É natural, para a direita, utilizar-se dos piores expedientes: da truculência, da corrupção, do engodo, de golpes, de mentiras, mas não deve ser assim para quem luta pela igualdade, pela justiça e pela paz. Enxergo quem toma este caminho errado, dentro da esquerda, como um elemento desviante e dissonante e é nesse sentido que o que digo a seguir deve ser considerado.

A esquerda, como todo agrupamento humano, não atrai só gente idealista, que deseja se envolver com os seus objetivos declarados, mas, também, alguns indivíduos interessados apenas em amealhar influência e avançar politicamente sobre os demais. 

Ambiciosos são atraídos pelo poder, como moscas o são para o monturo. Raramente vamos encontrar o pensamento de pessoas que buscam o poder sem respeitar limites em forma de lições. Em geral, elas o utilizam para conquistar os seus próprios objetivos. Porém, no caso de Sergei Netchaiev, o anarquista russo que escreveu o “Catecismo Revolucionário”, em 1869, ele acreditava que poder expressá-los num manual ajudaria na causa com a qual estava comprometido.

Em seu escrito, Netchaiev afirma que qualquer meio é válido para alcançar os objetivos “revolucionários”. O item V do seu manual esclarece bem o que ele quer dizer por “qualquer meio”: “É necessário que o revolucionário, duro para com ele próprio, o seja também para com os outros. Todas as simpatias, todos os sentimentos que poderiam emocioná-lo e que nascem da família, da amizade, do amor ou do reconhecimento devem ser sufocados nele pela única e fria paixão da obra revolucionária. Para ele não existe mais que um prazer, que uma consolação, que uma recompensa, que uma satisfação: o sucesso da Revolução”.

De fato, em sua curta existência, Netchaiev foi bastante coerente com tudo o que escreveu: assassinou, roubou e traiu. Infelizmente, embora não confessem, alguns seguem os ensinamentos de Netchaiev, justificando quaisquer meios em função de um suposto fim altruísta. É triste constatar que até mesmo Trotsky chegou a fazer coro com Netchaiev e seus ideais políticos. Em seu livro, “Moral e Revolução”, o meio é justificado pelo fim e tudo é permitido, desde que conduza à “libertação dos homens”.

Trotsky reduz a moral a uma estrutura ideológica do pensamento burguês, um mero produto do desenvolvimento social, sem nenhum caráter imutável, servindo a interesses sociais contraditórios. Portanto, uma vez implodida esta inconveniência conceitual, uma vez removido este inoportuno fleuma comportamental, estaria expedido o “passe livre” para se destruir a tudo e a todos em nome de um ideal supremo que justificaria qualquer ato para ser atingido.

A relativização da moral proposta por Trotsky em “Moral e Revolução” acaba por justificar até mesmo o seu próprio assassinato, realizado em 1940 no México a mando de Stalin. Interpretado por Stalin como sendo uma pedra no sapato da revolução e da organização das massas, Trotsky foi simplesmente eliminado a golpes de picareta. É trágico que isso tenha sido coerente com algo que ele próprio defendeu.

Boas intenções não bastam. Os monges cristãos parabolanos deixavam tudo para trás para cuidar dos leprosos pobres, mas também foram capazes de matar a filósofa Hipácia e de tacar fogo na Biblioteca de Alexandria, logo nos primeiros anos do cristianismo. Os meios podem, sim, negar e inviabilizar os fins. A empatia, a dignidade e a honra que foram deixados pelo caminho jamais serão reencontradas no final.

Nem tudo vale a pena para se chegar a um objetivo, ainda que o consideremos legítimo. Se apenas um dos ingredientes da receita for uma dose de veneno, o seu resultado será igualmente venenoso.

O escritor cristão, Leon Tolstói, com grande lucidez, disse em seu, “O Reino de Deus está em vós”, que aquilo que é tomado pela força e pela violência só pode ser mantido pela força e pela violência. Passos indignos constroem um caminho duvidoso, que transformam qualquer ideal, por mais nobre, em desprezível.

Nenhumcomentário
500 caracteres restantes.
Seu nome
Cidade e estado
E-mail
Comentar
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Mostrar mais comentários