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Sou Márcia Lucena e este ano farei 58 anos...

AQUI É NOSSO LUGAR E NÓS VAMOS OCUPÁ-LO

COLUNISTA CONVIDADA

COLUNISTA CONVIDADAEspaço para intelectuais que contribuem para o fortalecimento do humanismo no Brasil e no mundo.

31/01/2021 02h52Atualizado há 1 mês
Por: Agassiz Almeida Filho

POR MÁRCIA LUCENA

Professora e ex-prefeita de Conde

Vejo a vida passar numa rapidez perturbadora! O corpo, mais que outras dimensões da vida, acompanha o tempo. Há todos os outros benefícios advindos da maturidade (neste caso, envelhecimento muda de nome). Contudo, as mudanças no corpo gritam e vão deixando evidentes as características trazidas pelo tempo: adolescentes me oferecem o lugar pra sentar no ônibus, o motorista de táxi pergunta se tenho netos, as roupas vão ficando (mais rapidamente) apertadas, acordo na madrugada com todos os líquidos do meu corpo fervendo por 5 minutos, seguidos de um frio na espinha, e os cremes dermatológicos já não fazem mais tanto efeito no rosto, que insiste em revelar os 58 aninhos vividos com  tanta intensidade. 

Às vezes, quando revelo algumas passagens da minha vida, é comum as pessoas dizerem "deu tempo viver isso tudo?"  ou " você já fez isso tudo na vida?". Fiz muito! Vivi muito! Acho que, por este motivo, pela intensidade e fartura de vivências, a minha vida vem extrapolando pelo corpo como quem diz: "Deu! Tá escorrendo, tá derramando!" E muitas vezes me sinto velha, inadequada. 

Outro dia, uma pessoa, tocou no meu ombro pra chamar minha atenção numa roda de conversa e tomou um susto dizendo "nossa professora! A senhora tem um ombro frágil! Não esperava!". Não esperava? Esperava que eu fosse o King Kong? Não sei exatamente o que revelou para ele aquele toque tão rápido quanto um gesto corriqueiro, mas igualmente me surpreendi com sua reação e rebati: "é só um ombro e sou apenas uma mulher!"  

Depois disso, me perguntei: Que imagens venho construindo na vida para os outros e para mim mesma? O que ou quais dessas imagens realmente me pertencem ou como se articulam hoje em minha subjetividade? Para onde foi a criança que vivia, invisível, por estar muito mais tempo em "outro planeta" do que presente aqui e agora? Para onde foi a pessoa ingênua, distraída, "lesa", que não merecia a confiança de fazer tarefas de responsabilidades e ocupou meu corpo em tantos momentos da infância, adolescência e juventude?

Para onde foram a filha e a irmã que tomam para si a missão de manter a harmonia e o equilíbrio na família? Para onde foi a professora de educação infantil e alfabetização que se orgulhava de estar ali, no princípio de tudo na vida das crianças? Para onde foi a mãe e a mulher insegura da família que criei? Para onde foi a terapeuta de grupo que estudou tantos anos com a intenção de contribuir consigo e com os demais, diante dos mistérios da existência?

Para onde foi a gestora pública, com a força e a responsabilidade de imprimir mudanças e inovações? Será que estão todas essas partes ainda comigo ou apenas deixaram suas pegadas em meu corpo e as suas máscaras nas minhas imagens? Sou apenas eu ou sou muitas? Estas são reflexões e sentimentos que, distanciadas das particularidades de cada mulher diante dos seus afazeres diários, fora ou dentro de casa, invadem o infinito particular de todas nós. Ser mulher é um desafio, um exercício e, ao mesmo tempo, um privilégio! 

Descobrimos, entre nós, que somos únicas e muitas ao mesmo tempo, exercendo nossas mulheridades! Por mais que sejamos diferentes, por mais que tenhamos outras condições sociais, financeiras, emocionais, algo nos une! E esse "algo" é o desejo de ir mais fundo, cada vez mais fundo em nossas descobertas e vivências. Por esse motivo, mesmo sem necessariamente saber, seguimos, caminhamos, nos permitimos e nos entregamos ao movimento e nos transformamos sempre, se vivas e despertas estivermos. E estamos! Estamos para dizer que aqui (seja lá onde for!) é nosso lugar e vamos ocupá-lo!

Foto: arquivo.

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