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COLUNA

"Ele gosta do cheiro da morte"

SEMANA DE 11 A 17 DE JANEIRO DE 2021

NELSON ROSAS RIBEIRO

NELSON ROSAS RIBEIRONelson Rosas é professor emérito da UFPB e vice-coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (www.progeb.blogspot.com; [email protected]). A coluna faz a análise econômica da semana.

31/01/2021 03h30Atualizado há 6 meses
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POR NELSON ROSAS RIBEIRO

A realidade está confirmando as previsões sobre o que nos espera em 2021.

A segunda onda da covid-19 transforma-se em tsunami. O sistema de saúde em Manaus e, aos poucos, no resto do Amazonas, começa a entrar em colapso, o que era previsto. As pessoas já estão morrendo nas ruas. Com a colaboração do general (des)intendente, que de nada entende, e muito menos de pandemia, a situação complica-se. Não há insumos nem seringas suficientes para a população, nem sequer oxigênio. Pagamos caro, agora, os desaforos dementes de outro imbecil alçado a chanceler do país, contra a China e a Índia, os maiores fornecedores de vacinas e componentes. Ernesto Araújo queria que fossemos párias no mundo e conseguiu. Deve estar muito feliz.

Depois do brutal fracasso de seu plano de sabotar o uso da Coronavac, o “psicopata agressivo, tosco e desprezível”, que, para nossa vergonha, dirige o país, aparece com a maior cara de pau para dizer que vai aplicar a Coronavac, chamada por ele de “vacina do Brasil”, embora continue a insinuar que as pessoas possam virar jacaré, as mulheres criarem bigode e que melhor seria fazer o tratamento precoce com cloroquina e remédio para carrapato. Enquanto isso, o governador de São Paulo, Doria, em uma manobra de marketing vacinou a primeira pessoa no país, o que provocou um grande bate-boca entre ele e o presidente. Entre outras coisas, Doria culpou o presidente pelo caos sanitário, de saúde e econômico atual provocado pelo “governo incompetente”, de um “pária internacional”. “Ele gosta do cheiro da morte” afirmou. Com medo de processos futuros, o general (des)intendente, sentado na cadeira de ministro da Saúde, apressou-se em dizer que seu ministério nunca recomendou tratamento precoce com essas drogas.

Se do lado da saúde vamos muito mal, do lado da economia não poderia ser melhor. O problema é que os imbecis ainda não descobriram que, nos dias atuais, da vacina depende a economia. Com a segunda onda, os decretos com as restrições às atividades não essenciais estão sendo reeditados. O setor de serviços que estava retomando lentamente, em novembro cresceu 2,6%, deverá desacelerar novamente. A covid prejudica a produção. As estatísticas mostram que 10% dos afastamentos do trabalho se deveu ao coronavírus. Foram 10.800 afastados. O medo da enfermidade leva as pessoas a permanecer em casa. O desemprego não vai cair. Apesar da queda na demanda com o fim do Auxílio Emergencial, a inflação teima em subir com a colaboração da suicida política de preços da Petrobrás que elevou em 7,6% o preço da gasolina.

No setor automotivo, outra crise. A montadora Ford, uma das mais antigas e importantes do país, resolveu fechar todas as fábricas e retirar-se do mercado local. Especula-se agora se outras montadoras farão o mesmo e qual o futuro desse ramo industrial. Discute-se o tamanho da repercussão para a economia, a começar pelo aumento do desemprego com mais 50.000 novos desempregados e o efeito cascata sobre os outros setores. O encerramento da Ford vem no seguimento de outros anteriores: a Audi, no Paraná, e a Mercedes-Benz automóveis.

Este ambiente derrubou os índices de confiança calculados pelo Ibre/FGV. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu para 78,5 pontos e o Índice de Confiança Empresarial (ICE) caiu para 95,2 (abaixo de 100 indica pessimismo). A FGV aponta como principais causas as incertezas quanto à vacinação e à economia, à pandemia, ao desemprego, ao fim do auxílio emergencial e à inflação de alimentos. A FGV apurou, ainda, que esta incerteza leva os consumidores a manter suas poupanças e não aumentar o consumo como se pensava. Diante desta situação, a FGV prevê uma desaceleração da economia no primeiro trimestre e mesmo em todo o primeiro semestre de 2021.

A nível internacional, a derrota de Trump quebrou as pernas do bolsonarismo. Quando encurralado Bolsonaro é capaz de jogar pedra na lua. Apelou mais uma vez para a ameaça de golpe militar, usando como exemplo a tentativa de invasão do Capitólio nos EUA. Caso perca as eleições de 2022, aqui será muito pior. Preparemo-nos.

Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Guilherme de Paula, Monik H. Pinto e Daniella Alves.

Imagem: CLACSO

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