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A balbúrdia e o idiota inútil

VERBORRAGIA

MARCELO PIANCÓ

MARCELO PIANCÓMarcelo Piancó foi um humorista paraibano de expressão nacional. Faleceu em 22 de março de 2020. O portal preserva suas publicações em homenagem à memória de Piancó, que foi um dos nossos colunistas de primeira hora.

21/05/2019 19h05Atualizado há 3 anos
Por: Agassiz Almeida Filho

POR MARCELO PIANCÓ

Começo neste espaço, dizendo que é uma honra me juntar a um time que pensa e batalha por um pais melhor e pelos direitos de todos, coisas da Esquerda Virtual e bem difíceis de defender, nessa era dos espíritos armados e da falta de leitura.

O jovem Brasil de hoje atravessa uma crise ideológica, mas não é uma questão de direita ou de esquerda, e muito menos de progressistas ou conservadores, liberais ou estatizantes. É uma guerra declarada entre o bom e o mau caráter. Esse embate ganha adornos surreais com pessoas estrategicamente (des)preparadas para transformar futilidades em coisas importantes e coisas importantes em futilidades.

Hoje a cor da roupa do menino é uma pauta mais importante do que o respeito à diversidade. Estamos diante de uma velha política vestida com um uniforme lustroso neofascista. Essa nova roupagem tenta nos enfiar pela cabeça a gola padronizada do senso comum e defende o que parece ser mais aceitável para a maioria das pessoas, que podem vestir ou conseguem admirar a moda do discurso fácil, de compreensão rasteira, não por ser exato, mas por não parecer exótico.

Afinal, tudo que é novo choca. Quem poderia imaginar, há 80 anos, que a mulher poderia votar, que o negro poderia entrar pela mesma porta do branco e que o homem traído pudesse perder o direito de matar sua “conge” sob violenta emoção e em legítima defesa da honra?

Agora as universidades públicas se tornam a nova “mamadeira de piroca”, e os arautos do senso comum gritam suas frases, que soam mais obcenas que os protestos de estudantes nus, pois desnudam a alma e o caráter dos inconspurcados da casa grande.

Muitos perguntam por que não assistimos alunos da universidade particular sem roupa, protestando? Eu respondo. Talvez porque eles estejam satisfeitos com o ensino pelo qual pagam(!?), talvez porque ninguém proteste contra a discriminação que não sofre, talvez por não se preocuparem com o dinheiro do papai ou do FIES ideológico, talvez porque ostentar roupas de marcas seja sua forma de protestar e mostrar que estão num nível econômico superior.

Mas acho que não devíamos nem tentar responder a certas perguntas, pois pode parecer algum tipo de filosofia, e a única possível, nesta fantástica fábrica de três chocolates e meio, é a Havan filosofia de arrepiar até o abastado careca abestalhado.

Pois bem, os estudantes foram às ruas, o Presidente foi a Dallas. Os estudantes gritaram, cantaram, picharam, responderam e mostraram a força que vem da multidão, o medo que a união provoca e a organização da qual a balbúrdia é capaz.

Segundo o doutor apedeuto que está no trono, o nosso país tem milhões de idiotas úteis. São idiotas que estudam, pesquisam, contestam e são úteis porque fazem uma ciência muito mais complexa do que plantar uma semente num chumaço de algodão na gravidade zero. Mas, voltando ao que falou o intruso de Dallas, se são apenas militantes da esquerda é mais preocupante ainda para seu governo cítrico, pois eles são muitos, e vão se juntar aos que já não simpatizam com a inoperância da idiotice inútil, aos que estão se sentindo traídos e aos que entraram na espiral do silêncio com vergonha do voto também inútil.

Enquanto isso, na Câmara Federal, o ministro nota zero tentava provar, desta vez sem usar chocolates, que a culpa era da herança maldita dos governos anteriores e seu viés ideológico. O "educador" Alexandre Frota ainda fez um discurso embasado em memes de Whatsapp, mostrando que Dilma também cortou verba da educação e que isto já bastaria para justificar as medidas do novo governo, que quer desfazer tudo que o PT fez justamente fazendo o mesmo que o PT fez.

Assim chegamos ao cerne da questão, que é o ódio ao PT, ou, melhor dizendo, ao Lula acima de tudo, pois o que mais irritou não foi o levante popular, a nudez das balbúrdias, a maconha queimando nos centros estudantis e muito menos a lição de solidariedade na luta por direitos conquistados. O que mais incomodou o capitão é que o coro Lula Livre ficou mais alto e mais forte, tão forte que ele o ouviu de Dallas e fez com que perdesse até a compostura que nunca teve. Um Lula preso incomoda muita gente, mas um Lula Livre incomoda até o Presidente. 

Foto: Brasil de Fato

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