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COLUNA

Eldorado do Carajás: o sangue vertido na luta

23 ANOS DEPOIS

PRETÉRITO PRESENTE

PRETÉRITO PRESENTESheila Maria Garrido Rodrigues analisa o dualismo cultura e Política. A coluna parte da ideia de que as artes promovem a liberdade e a emancipação humana. Sheila é advogada e pesquisadora na área de Direito, cultura e meio ambiente.

22/05/2019 17h23Atualizado há 8 meses
Por: Agassiz Almeida Filho

POR SHEILA MARIA GARRIDO RODRIGUES

Até certo ponto, a afirmação de que o futuro repete o passado é duvidosa porque o futuro sempre tem a oportunidade de incorporar elementos novos à realidade, criando ramificações que podem se diferenciar bastante daquilo que já passou. Porém, numa sociedade reacionária, de bases nitidamente escravocratas, onde as elites odeiam o povo, muitas vezes o que há de pior nos registros históricos retorna para assombrar a democracia e os direitos humanos.

O governo Bolsonaro tem feito um esforço insistente para criminalizar os movimentos sociais, notadamente o MST, colocando a propriedade privada acima de qualquer circunstância, desconsiderando sua função social e promovendo ações para uma verdadeira guerra nas áreas rurais do país. Uma das iniciativas do governo foi editar o Decreto n° 9.785/ 19 – modificado por novo decreto publicado na tarde de ontem (21) –, que autoriza o porte de armas de fogo para o residente rural que puder demonstrar oficialmente sua condição. Nada para os trabalhadores, a não ser o risco do assassinato e da emboscada.

Fazendo menção a assassinatos e massacres no campo, vamos nos reportar à tragédia de Eldorado do Carajás, pequena cidade do Pará que protagonizou, em 1996, o abate de dezenove trabalhadores sem terra em decorrência de uma investida da polícia militar contra o acampamento do MST perto da Fazenda Macaxeira. A tragédia teve grande repercussão internacional e chamou a atenção para o modo de exploração medieval que caracterizava e ainda caracteriza o trabalho rural no Brasil profundo.

Foi erguido um monumento denominado Eldorado Memória, poucos meses depois da matança, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer em homenagem à memória das vítimas. O monumento em alto relevo apresentava um arado na vertical, segurado por uma mão e posicionado entre dois olhos. Simbolizava a luta pela dignidade no campo e a resistência dos trabalhadores rurais, seu meio de vida e de compreender o mundo. O monumento foi destruído poucos dias após a inauguração por grupos não identificados de latifundiários. Na obra constava a seguinte frase: "A terra também é nossa."

Como ato de resistência, as lideranças do MST pensaram em um novo marco para homenagear os companheiros que tombaram no massacre. Em 17 de abril de 1999, os oitocentos sobreviventes de Eldorado ergueram o que foi chamado de As Castanheiras de Eldorado do Carajás, mais conhecido como Monumento das Castanheiras Mortas. Um dos motivos para a escolha das castanheiras foi o fato de elas estarem em extinção por causa do mesmo tipo de ação predatória e ilegal que levou à chacina dos trabalhadores sem terra três anos antes.

O elemento nada novo que o futuro reservou para as gerações que sobreviveram ao massacre foi o apoio governamental àqueles que praticam a violência no campo, que se utilizam da lei para legitimar os assassinatos covardes praticados ainda hoje pelo latifúndio. E o mais grave, com as redes sociais, esse comportamento do governo Bolsonaro e dos latifundiários passou a ser assumido e aplaudido por lunáticos e idólatras de deuses vários sem nenhuma divindade, bolsonaristas que ainda veneram os senhores das capitanias hereditárias e não conhecem o sentido da convivência democrática. Vinte e três anos após Eldorado do Carajás, a luta pela dignidade no campo ainda é luta de sangue.

Foto: Domingos Peixoto/ Agência O Globo

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