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No país em que racismo é “coisa rara”, sobreviver significa transgredir

PRECONCEITO

ENSINANDO A TRANSGREDIR

ENSINANDO A TRANSGREDIRInspirada na obra de Bell Hooks, a coluna aborda diversos temas do cenário político contemporâneo com olhares interseccionais, especialmente aqueles que dizem respeito ao gênero, à sexualidade e à raça. José Clayton Murilo C. Gomes pesquisa nas áreas de raça e processos de racialização, gênero e sexualidade.

22/05/2019 19h31Atualizado há 1 ano
Por: Agassiz Almeida Filho

POR JOSÉ CLAYTON MURILO C. GOMES

Na noite de terça-feira, 07 de maio de 2019, foi ao ar a entrevista de Jair Bolsonaro, Presidente da República, ao programa “Luciana by night”, comandado por Luciana Gimenez. A conversa, que, de tão descontraída e irreverente, mais parecia um “papo de comadres”, atravessou a vida pessoal de Bolsonaro com perguntas sobre seus filhos e sobre o seu passado, além de exercitar a capacidade do Presidente da República de formular legendas para fotos, game típico dos programas de auditório. 

A entrevista, cujo alvo era exponenciar a adesão de diversos setores sociais à reforma da previdência, limitou-se a tratar o assunto de modo superficial, fazendo deste um dos poucos momentos da conversa em que assuntos relacionados à política foram mencionados. A reforma da previdência, contudo, não foi o único momento político da entrevista. Ao comentar sobre os rótulos de racista e homofóbico que lhe são atribuídos, Bolsonaro afirmou que não é racista, visto que, nos anos 70, impediu o afogamento de um amigo negro no Exército. 

A afirmação, que já não causa mais de espanto, frente aos absurdos vociferados pelo Presidente de República, foi completada com a constatação de que “no Brasil é uma coisa rara o racismo”. Ao fundo, é possível ouvir Luciana Gimenez concordar, dizendo que “isso não cola muito” e “é chato”. A fala de Bolsonaro, contudo, não é isolada. Em junho de 2018, o então pré-candidato à Presidência da República afirmou que “aqui no Brasil não existe isso de racismo”, na tentativa de se escusar do parecer da Procuradora-Geral da República, em que Raquel Dodge emitiu parecer pela admissibilidade da denúncia por racismo contra Bolsonaro. 

As investidas de Bolsonaro na tentativa de minimizar o racismo que cruza diversos setores sociais no Brasil podem ser compreendidas como aquilo que Ana Luiza Pinheiro Flauzina chamou de “blá-blá-blá inóquo”. Este blá-blá-blá se caracteriza pela negação do racismo e defesa do Brasil enquanto “paraíso das raças”. Negar o racismo, aliás, compõe um campo de disputa política, já que negar a existência das diversas discriminações fundadas em processos de racialização significa impor um bloqueio às diversas mobilizações antirracistas engendradas por amplos movimentos socias. 

O racismo não somente existe, mas tem provocado, conforme venho defendendo, fenômenos que vão, desde a escravidão até o atual genocídio da juventude negra experienciado no Brasil. Assim, os números, ao que parece, desmentem a posição do Presidente. Enquanto os negros são 54% da população, representam 71% do número de vítimas de homicídios no Brasil, de 2005 a 2015, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Além disto, segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, os negros compõem 64% da população carcerária do Brasil.

Os números são inversamente proporcionais quando o assunto é emprego e acesso ao ensino superior e a pós-graduação. Assim, em terra em que a prisão ou a morte são mais prováveis que o acesso ao trabalho digno e ao ensino superior, ser negro é, antes de tudo, resistir. No país em que racismo é, segundo o Chefe do Executivo, “coisa rara”, sobreviver significa transgredir o genocídio em curso. 

Foto: Agência Senado

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